terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Sobre um Reencontro


Estive pensando que provavelmente você não sabe quem eu sou e eu não a conheci o suficiente. Quero dizer, tirando o básico dos primeiros dias quando a gente pergunta a idade, se já amou um dia e se pretende ter filhos, nunca nos esforçamos fazendo planos. É possível que nem tenhamos muitas coisas em comum; talvez nossos signos não sejam ideais, um para o outro, eu ainda nem sei.
Mas será que o seu desejo ainda é só o desapego? Será que se eu optar por você mais uma vez, vamos continuar naquele velho jogo de armadilhas e indiferença, ciúmes e desaforos?
Não consigo nem me enganar: você tem os defeitos que me inspiram, tem o cheiro e a cor dos bons sonhos, é um tormento reconfortante no meio do caminho errado. Já vivi todas essas cenas antes, conheço seus passos, e mesmo sabendo que não sou mais tão inocente e você parecendo mais sincera ainda fica difícil aceitar que eu estou me deixando levar outra vez.
Isto aqui já foi um diário de amores sofridos e saiba que você já ocupou algumas páginas dele há muito tempo; eu não esperava vê-la novamente, talvez por imaginar que eu fosse implorar mais uma chance no instante em que a olhasse, ou por ter consciência de que sendo eu tão vulnerável iria me impressionar rápido demais. Eu estava certa ao me proteger, porque no momento em que a percebi meu coração quis saltar tentando me alertar do perigo.
Agora é tarde para querer definir o ponto em que eu não podia ter me distraído: você já chegou tirando meu sossego e meu silêncio se fez grito de socorro. Então entre e tome de uma vez o seu lugar, mas venha para ficar e só não repare na bagunça que ninguém conseguiu arrumar ainda.

Written by: Angélica Manenti

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Passado Remoto


Não posso nem brindar minhas astúcias, pois compreendi umas verdades intragáveis sobre mim: só tenho a capacidade de me regenerar e me fazer melhor quando sou confrontada por alguém que me incomoda.
Não posso suspeitar dos meus instintos, pois só percebo que estavam certos quando já é tarde demais. Estou com o destino há muito decidido, nas mãos dela.
Se eu pudesse torná-la real, eu tinha alguns planos já traçados para nós. Às vezes, olhando as fotos que restaram, relembrando longas conversas eu fico procurando qualquer pista que faça o mínimo de sentido. Minha vida virou pelo avesso: sinto arrepios de medo só por imaginar que você pode nunca mais voltar. São tantos dias de espera, são tantas horas incertas sem desejar outra coisa que não seja vê-la surgindo de repente, dizendo que veio para ficar.
Você foi indiscutivelmente o meu veneno: lento, impiedoso, me corroendo aos poucos, mas eu só conseguia respirar enquanto corria em minhas veias. Eu nem posso reclamar sua ausência, em parte por minha culpa que num momento de desconfiança lhe pedi que saísse da minha vida; mas era só uma ameaça – eu nunca encarei bem a possibilidade de lhe perder – achei que eu precisava de uma prova maior quando a vi escapando entre meus dedos sem que eu pudesse evitar. Tentei lhe dar um susto fazendo a maior besteira de todos os tempos: os dias foram passando e derramando minha esperança de lhe ver de novo; os meses foram me esmagando e nada me conforta; já passaram alguns anos e eu continuo a esperar.
Fiquei aqui, com o coração a definhar, escrevendo esses apelos enquanto me agarro ao delírio de que estes lhe trarão de volta. Mas eu devo ter perdido a sanidade para sonhar com isso – algumas palavras bem escritas não têm o poder de concertar uma história que eu mesma destruí.

Written by: Angélica Manenti

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Agonias Entrelaçadas


O que vou fazer com essa solidão teimosa que tem ocupado todo o espaço dos outros sentimentos? Eu pedi que ela fosse embora porque não agüentava mais aquela expectativa – passar os dias aguardando pode corromper nossos sentidos e noção de tempo, transformando minutos em dias, ressaltando as horas vagas repletas de agonias.
As lembranças recentes vão se dissolvendo na mesma velocidade em que são criadas, enquanto que aquelas velhas memórias dos tempos de incerteza e coragem só fazem firmar ainda mais suas raízes.
Às vezes dá vontade de admitir que enlouqueci mesmo, que não consigo mais pensar direito e minha cabeça dói sob o peso do esforço que faço para esquecer o que já se calou e lembrar do que precisa permanecer. Dá vontade de gritar que chega, não quero mais ouvir nada disso. Mas a vida foi feita mesmo para ser suportada – na mentira e na desordem – como um grande teste de paciência. Apontar injustiças não obriga que elas sejam resolvidas assim como reclamar saudades não ressuscita os mortos.
As palavras precisam ser bem medidas nesse funeral de histórias mal acabadas: a intenção precisa ser comedida, a raiva tem de ser drenada. Escrever um desabafo pode reiniciar uma guerra adormecida, só depende do quanto disso aqui é verdade ou capaz de se encontrar com seus pesadelos mais íntimos. Deixem que a conheçam, revele seus defeitos, tire a máscara em público e veremos quem é capaz de lhe aceitar.
Não estou gostando dessas linhas e com certeza irei odiar as próximas, porque venho tentando descrever aqui imagens e sensações impossíveis de definir; talvez isso justifique minha dificuldade em me fazer objetiva. Havia tantos rostos se fundindo e confundindo meus desejos, de tantas mulheres que eu nunca mais consegui encarar de frente: algumas tão distantes, encantadoramente impossíveis; outras com ares de deusas da antigüidade, tão sagradas e intocáveis; algumas são a reencarnação de Lilith, demônio da promiscuidade, cheias de curvas e malícias; outras são víboras traiçoeiras, sedentas de sangue e se alimentando da culpa alheia; algumas tão doces e melancólicas; outras frágeis, desprotegidas, vingativas, arrogantes e desumanas.
Sinto falta de cada uma delas, assim como também sinto repulsa e temo que elas retornem. Não posso continuar sem elas, mas não posso mais revivê-las. Estou presa a uma contradição: não posso erguer as bases de algo novo sem que me livre do passado, mas continuo respirando o ar daqueles tempos.

Written by: Angélica Manenti

sábado, 13 de novembro de 2010

Epílogo: Nota de Correção


Tantas pessoas ainda por se encontrar, e a gente se perdendo por descuido do egoísmo. Eu queria lhe dizer umas verdades antes de ir embora, mas me senti culpada por conhecer sua história, achei que não tinha o direito de lhe ferir. Naturalmente eu estava enganada: em toda relação existe um lado injusto e você não se importou de machucar meu orgulho dizendo um monte de absurdos desnecessários.
Confesso que não sinto sua falta, e pela primeira vez não encaro isso como um grave pecado. Não é, nem de longe, minha intenção condenar suas escolhas, apesar de achar que os rumos que se sucederam não fazem sentido. Nada disso condiz com a paciência que lhe despendi.
Mas eu sempre estive afundando – isso já não importa – e as minhas dúvidas há muito acostumaram a não serem sanadas. Se eu lhe fiz perguntas foi por conhecer os meus direitos: independente da sua justificativa, eu era a única parte interessada em ouvi-la.
Mais uma vez fui recolhendo meus anseios, e na rotina de me privar do sentir eu fui criando barreiras intransponíveis em torno de um coração já indiferente a qualquer espécie de sentimento.
Confesso ainda que se chorei, foi por não admitir perder. Não se tratava de sofrimento, remorso ou medo de sentir sua falta – era apenas orgulho, ferido no mais íntimo de sua existência – sendo rebaixada por alguém a quem dei a liberdade de invadir a fortaleza da minha frieza por ter me feito acreditar que eu estava me entregando em boas mãos.
Infelizmente não há outro assunto do qual eu possa tratar no momento. Não estou me vingando ou tentando me apresentar como vítima. Sou pessoa de muitos equívocos e memória fraca, guardo muito bem minhas culpas para remoer nas horas vagas e esqueço facilmente as desavenças. Mas essa culpa não me pertence: não fui responsável por esse estrago todo, minha consciência descansa tranqüila e até um tanto mais leve sem a preocupação de ter de passar os dias tentando lhe entender.

Written by: Angélica Manenti

domingo, 10 de outubro de 2010

Meu Desperdício


Fui esquecendo-me de viver: sempre lutando contra o sono ou dormindo demais. Os dias foram se escondendo de mim, se condensando em chuvas torrenciais, se nublando de propósito; a noite foi se esquivando, escorrendo e tantos lados escuros foram me fazendo sentir fora do meu espaço e tempo.
Quando eu me perdi por vaidade – achando que a felicidade era para mais tarde, para quando houvesse tempo de sobra. Fui me tornando covarde e o medo maior sempre me aguardando no espelho. Ensaiei longos pretextos por não estar me sentindo confortável com essa situação e achei todos dramáticos demais e nem de longe verídicos; é só uma condição minha que eu, por desleixo me recuso a mudar. Era o mal, exagerado e ambicioso exigindo atenção. Minhas verdades: não sou boa em quase nada, mas digo que faço, refaço e desfaço. Qualquer hora eu me atrapalho com meu próprio atrevimento.
Foi quando a vida esvaziou-se, e eu, ingrata e sem escrúpulos fui buscando delírios e vícios mais reconfortantes; entreguei-me às minhas mazelas: recolhi-me ao meu submundo antecipadamente. Eu tinha planejado me entregar ao impulso mais tarde, pretendia me expor aos riscos quando sentisse que algo muito maior se perdeu. Achei que fosse o momento quando me vi desatando laços e escorregando nas falhas que pareciam ter sido consertadas.
O egoísmo me preenchendo e eu querendo que o mundo abrisse os olhos para me enxergar. Fui sentindo um apelo crescendo dentro de mim junto a uma vontade de ser maior. Mas era repentino e superficial, era medo de estar caindo no mesmo abismo de dias passados e eu acabei me acomodando – desisti de me recompor.

Written by: Angélica Manenti

domingo, 26 de setembro de 2010

Quase Longe


Hoje eu entendo esse nosso gostar acertado, quando o tempo passa arrastado e necessário do seu lado. A gente vai se conhecendo no estreito dos passados quando convém que se contem as histórias, cada qual numa tarde de memórias demoradas.
Agora que a gente vai ter de provar um exemplo de saudade eu me pego pensando umas palavras novas, penso que deveria ter dito antes, naquela hora do olhar calado que estava mesmo era cheio de frases mal terminadas, esperando sua chance de escaparem. Quando a gente esquece-se de conversar e tudo vira mesmo um confuso de braços e beijos, é quando eu sinto umas verdades estranhas, que não acho meio de representação em palavra definida.
Eu ando achando que essa semana vai me ser um derradeiro mal, que você vai me fazer uma falta tamanha, dessas que retiram as vontades de cumprir a rotina diária. Que a presença, quando põe no sorriso da gente a alegria, faz nosso dia parecer um inteiro que se dissipa sem demora, sempre muito mais suportável. E a ausência faz preguiça, tira a firmeza dos gestos. Fica mais perto, por certo.

Written by: Angélica Manenti

domingo, 12 de setembro de 2010

Livro tem que ser aprendido como diversão

Você veja só que coisa mais irônica: eu adoro ler. Sério mesmo. Inclusive, eu amo comprar livros porque acho interessante colecioná-los, sair emprestando. Mas pegue um título qualquer como exemplo. Se indicarem como uma boa leitura – que seja em uma conversa descompromissada entre amigos – eu devoro cada palavra, viro noites envolvida com o livro; já se me impuserem como dever eu acho uma sujeira – a leitura fica fúnebre, empaca. O prazer da literatura está na não-obrigação, no viver a história ao seu tempo, construindo os personagens na imaginação até que estes virem uma espécie de memória, de tão vívido o nosso convívio.
Não force uma criança a ler: instigue. A escola não virou as costas para a leitura, mas ela traumatiza com a forma de abordar. Livro não é requinte de tortura para as odiadas aulas de Língua Portuguesa, Livro tem que ser aprendido como diversão e com letra maiúscula.
É fácil apontar a falha dos pais que não têm o hábito de ler, da escola que não incentiva ou da dificuldade de acesso. Aliás, gente levantando o dedo sujo para apontar os outros é comum. Mas eu estou reclamando aqui a raiz de um problema, e pelo que sei, toda raiz de um problema social está invariavelmente ligada ao caráter de cada indivíduo. Convenhamos: cada nova geração – quanto mais vítimas das facilidades e futilidades da tecnologia – está vindo mais corrompida e mesquinha. E digo isso por experiência, porque eu já vi muito marmanjo fazendo piada com a cara do colega que gosta de ler. Não estou exagerando, não. Pasmem: existe bullying literário (termo que eu não verifiquei se existe, mas faço questão de registrar aqui).
Então eu sempre recordo de uma professora do meu ensino fundamental que me marcou com sua paixão incondicional pela leitura e que plantou essa semente em mim. Ela fazia parecer que o livro tinha gostinho de chocolate. E ela também costumava dizer que nós nunca mais somos a mesma pessoa depois de um livro: vamos nos moldando com as palavras. Eu consigo ver claramente o quanto isso é essencial, e por isso me apavora o fato de que os jovens de hoje não prezam a leitura.
Se o livro com tamanho papel na sociedade for substituído por sabe-se lá que vaidade dessas gerações, imaginem vocês no que vai resultar a formação do caráter deles.

Written by: Angélica Manenti
Artigo Publicado no Jornal Enfoque Popular em 17/09/2010 (Página 2): http://www.jornalenfoquepopular.com.br/

Confissão apressada


Meu coração ficou apertado: eu senti que estava cometendo mais um erro. Foi um nó desses que a gente sente à beira da perda. Nossas garantias ainda são válidas? Porque o instante seguinte é o segundo mais incerto. E eu que andei disfarçando um apelo dentro de mim, pegava as sobras e me corrigia. Eu que andei tantos destinos antes de escolher uma direção, fui trajando de agonias a minha história; fui quebrando promessas só por medo de um dia doer na memória. Eu que ainda não sei se estou implorando ou fugindo, acredito que você possa ser meu guia desta vez, e que eu consiga me decidir quando for essencial. Fui descobrindo que a gente não escolhe as cicatrizes que vai carregar; fui suportando dores. Segurei tantas mãos, olhei dentro de tantos olhos. No fim essas inverdades não me satisfazem. Acordei tantos beijos, ocupei tantas horas da noite. Foi tempo desgastado. As horas escorregam na escuridão, liquidas demais. O vento sussurra, o frio se torna desconfortável e a pele continua nua. Esferas de fumaça pesadas de medo. Cheiro de outros desejos.
Eu me rendo, sou errada.

Written by: Angélica Manenti

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Novo


Gosto quando sobra assim, de viés na memória, aquela cena mais bonita do teatro, aquela peça mais intrigante do amor. Uma música que se arraigou para ser nossa desde o primeiro momento. Depois de andarmos uns passos desencontrados, num surto cego que não durou. Que não nos enxergávamos. Mas a gente descobre que tirando o amor, o mais da vida é sempre muito mal encaminhado.
Quando a gente decide terminar com a escuridão, acender uma luz boa de alumiar até dentro do coração, a gente inventa motivos mil que antes não sobravam. Ainda brincava que o amor um dia viria, sorrateiro para quem menos aguarda e procura, sem nem acreditar que a gente fosse se reencontrar por certo. Mas quase sempre sorria, porque a graça não estava no apartado da dor, estava mesmo era agarrada ao que ainda chegaria; era o dia de amanhã pintado nos quadros da sala e a gente adivinhava uma sorte verdadeira.

Written by: Angélica Manenti

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Diálogo dos Ponteiros


Meu relógio de pulso só pode estar errado. O meu dia inteiro é um ponteiro sem rumo, perseguindo o fim: da tarde, da semana, da angústia. Meus minutos todos são o sempre-alerta, evitando os desastres que supostamente venham a se revelar. As madrugadas inóspitas, sem sonhos nos quais eu possa acreditar. Algumas noites jogadas fora com uma garrafa de conhaque barato. A vida nos mata lentamente; e o valor da vida não paga uma dose de qualquer bebida. Às vezes, principalmente nos dias em que não amanhece eu mal posso sentir o cheiro da vida por entre o véu de neblina. Como no inverno, quando a vida se esconde e fecha bem todas as suas janelas.
No relógio de parede, as voltas dos ponteiros me deixam tonta quando tento acompanhar seu ritmo: o tempo se foi. Mais uma espera se esgotou. A memória seguiu se vingando impiedosamente. Horas inúteis e corrompidas. Rasguei mais uma tentativa falha de carta de despedida. A lixeira transborda, lá pelas tantas da madrugada. Passei mais uma semana rasurando meus próprios pensamentos.
Desisto.
Estas linhas estão tortas, o papel está molhado, as idéias se fizeram pó, ao vento.
- Levante-se. Ou você pretende gastar sua vida sentada nessa cadeira?
Mas era da consciência mal saciada. Faltavam lembranças boas para revirar nas horas vagas.
- Vá descansar, um dia, durante o final de semana inteiro.
Mas é mentira. Estou sempre correndo, fugindo e evitando.
- Certamente, você deve ter um fôlego e tanto para escapar sempre assim – ilesa – das ofertas da vida, que são tantas e tão tentadoras. Dá mesmo para ser feliz sem nunca se entregar?
Mas é só por conta do terror – monstruosamente indescritível – que eu sinto de algemas. O fato de não precisar usá-las é quase um conforto para a alma.
- Poderiam lhe servir como lição. E quanto aquele seu assunto, você ainda espera uma ligação?
Aquela notícia. Era um apelo revivido, um tempo em vão. Esperar pode ser como o tédio dos dias de domingo e mais nada. Como se um momento, sem mais nem menos, a cena do filme congelasse. Voltaria a rodar quando o telefone tocasse ou a porta se abrisse. É claro que eu não parei nada daquilo que estava fazendo antes, só abandonei o que ficou pobre de razão. Eu ando ocupada, mas às vezes me pego distraída, imaginando aquele instante – como seria se ela voltasse – e o nosso sorrir de verdade, escorrendo alegria por todos os cantos. Seria um alívio, eu acho.

Written by: Angélica Manenti

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Antes do Outrora


Depois de tantas mudanças, eu regredi. Desfiz muitos dos passos que mais me custou caminhar. Voltei atrás por uma ponte que desabou num instante depois de eu atravessar. As vias se fecharam. A comunicação entre os fios que me mantinham de pé se rompeu. Desatei as pontas por onde ela me levava a agir. Migalhas. A própria sorte se arrebenta no muro do outro lado da nossa condição miserável. Até mesmo a escuridão se esvai sóbria e intolerante. A liberdade plena nos rouba o próprio ar dos pulmões. Tudo está perdido, descomposto. Não podemos sequer dormir; nosso tempo é furtado. Isto que tentamos sentir, forte, arrebentado, no espremer das notas de uma melodia mal desenhada, repetida centenas de vezes sem piedade, é o dilúvio dos sentidos já esgotados: a visão turva de fracasso e insônia; os ouvidos inflamados de cólera e dor; a língua atrelada a um gosto de angústia, no dissipar das horas mais vivamente aproveitadas; o cheiro do sono solitário, perturbado pelo suor de um pesadelo cético e amedrontado; o tato corrompido, que já não identifica as texturas diferentes do áspero.
Acorde antes que esse barulho invada seu quarto tranqüilo e derrube suas paredes protegidas. Deixe doer, que a música inunde seus tecidos nervosos e lhe afogue na minha nostalgia. Espere as lembranças serem provocadas até que irrompam as lágrimas, mas pare de destruir o nosso quarto. Eu não tenho culpa de ser um fantasma e não poder lhe tocar. Não rasgue as nossas memórias, nossas noites ficaram gravadas nesse cômodo inconveniente, acompanhando sua rotina e torturando seus pensamentos mais importantes. Não vá se livrar dessa esperança ainda, antes de eu tentar voltar.

Written by: Angélica Manenti

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Sua Viagem


Quando voltar, traga para mim umas lembranças bem bonitas e a gente vai se divertir tanto contando as histórias. Traz assim, na sua memória, o lugar mais incrível que você sentir vontade de levar para casa; traz um cheiro bom daquele parque que tem um nome bem conhecido, e que eu sempre quis visitar; traz seu calçado ainda sujo das ruas de lá para eu saber que cor tem a terra no distante de nós. Só não traga saudades, porque dessa eu já vou ter em excesso aqui, e acho até que vou doar um tanto.
Você volta, né? Porque eu andei pensando assim, que se você topar com um sonho maior que o nosso, naquela cidade repleta de um-pouco-de-tudo, talvez você queira ficar para provar. É claro que eu sinto medo dos perigos que podem lhe sondar, mas eu tenho tanto orgulho da sua coragem que fico mais tranqüila; o que me arrepia mesmo é o pensar em perdê-la para um deslumbre dos seus olhos. Acho que você está indo conhecer um mundo no qual eu não saberia andar, de tão gigantes os movimentos.
Esqueci de lhe entregar isso antes – que eu achei tão simples e senti vergonha – mas não abre a caixa agora, espera quando você estiver longe e precisar de mim. Não vai achar esquisito quando vir que não tem nada dentro, o presente é simbólico. Entende que eu estou entregando meu amor para você levar, mesmo sem saber se você volta?

Written by: Angélica Manenti

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Meus Pertences


Estamos sempre covardes assim: beirando o fim. O mais da vida é tão desencontrado, e a gente aqui jogando fora a coragem. Tenho medo das ruas vazias. Essas horas calmas da madrugada, da maioria que dorme. Preciso de barulho e apego.
Quando esse dano vai passar? Isso que me afeta e me dói tem seus culpados, e eu não posso cobrar nada. Tem tanta palavra que eu nunca mais lembrei, e quando quis usar, acabei sem dizer. No caminhar da rotina eu vou me desfazendo, soltando as amarras e tomando distância do meu abrigo. Vou precisando de socorro e me mantendo apenas da esperança. Tão só que eu passo dias sem ver meus próprios pés. Vou circulando pela cidade, entrando em lugares onde acredito que possa te encontrar. Vou gastando quantas horas achar que suporto sem me agarrar em expectativas infundadas. Exausta, encontro o desespero. Parece que nada vai se resolver, eu não sei se quero chegar a uma conclusão e encarar outra derrota.
Não tenho armas, nem armadilhas. Não tenho mais palavras e nem bons motivos para te convencer. Não tenho jeito com as coisas bonitas do amor e sou treinada para sofrer. Não tenho dezenas de qualidades nem sou inacreditavelmente simpática. Não tenho um sorriso doce e não posso oferecer estabilidade emocional. Não posso fazer promessas sem me sentir hipócrita, nem posso contar muitas verdades sem parecer cruel demais. Não vou saber segurar as pontas e nem te dar os melhores presentes. Não vou recordar todas as datas nem ser fantástica em cada declaração.
Mas tenho muita vontade de te fazer feliz, mesmo sem saber por onde começar. Tenho as minhas cicatrizes para deixar como garantia e uma alegria muito sincera para te entregar aos poucos, no tempo em que me deixar ficar.

Written by: Angélica Manenti

Dia Nublado


Não vai adiantar procurar inspiração ao meu redor, ainda mais em um dia como hoje, de clima tão tímido e ameno. O dia que só existe na esperança de que os próximos venham melhores. Os movimentos nas ruas são os mesmos de todos os dias, e meu mundo parado é pequeno demais. A música ao fundo ainda é daquela nossa banda preferida.
Mas nesse som há hoje um tom de marcha fúnebre, desgastado pelo apelo do sacrifício, cobrindo-a com terra e sal. Não há cores, porque ela só gostava das rosas brancas; há uma estátua de um anjo traído guardando o local, porque ela acreditava; há veneno, porque ela o carregava nos olhos. Não há lágrimas, porque ela não as permitiria. Vai com ela um segredo calado, uma vaidade que me esgota e devora meus dias enquanto me questiono. Há uma nuvem que não pretende chover, porque ela gostava de comemorar no meio da rua, com os pés descalços.
Haveria luzes, se ela não tivesse se apagado.

Written by: Angélica Manenti

sábado, 31 de julho de 2010

O Mal da Inércia


Ouvimos tantas desgraças que não entendemos quando vai aí uma notícia boa. Pegamo-nos absortos de tão conformados que aniquilamos as expectativas mais otimistas por medo da altura do tombo. Vamos assim, cegos, tateando as possibilidades mais assustadoras antes que nos cheguem as confirmações. Tanto para saborear melhor o alívio como para confortar o espírito que pensa já não merecer nada que o valha. Dói-me o mastigar das idéias mais mesquinhas que me fizeram adiar o contato, atrasarem meus pedidos de desculpas que eu devia, e assim fui ficando com os pesos amaldiçoados de tudo aquilo que me esqueceu.
Fui rebelde com os meus amores e os desperdicei por pura displicência. Queria recuperar muitas dádivas as quais me foram oferecidas, e que neguei; queria ter mais atenção com os meus e cuidar de ir tratando com mais carinho, mais admiração os que me cercam.
Senti, num lapso de entendimento, que estou deixando o tempo se gastar mal com brigas e um mau humor sem motivos. Queria corrigir as etapas que corrompi, antes que o remorso dê conta de me engolir. Mas agora, sentada aqui de mãos atadas e sem saber onde buscar os avisos do que se passa em cada canto onde deve estar alguém que amo, sem que esses o saibam – por faltar eu lhes ter confessado isso antes com palavras compreensíveis – vejo que me equivoquei demais, talvez ao ponto de não merecer as novas chances que aqui peço.


Written by: Angélica Manenti

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Chega de Alienação

As pessoas que morrem em tragédias naturais são apenas números, mas o filho da Cissa Guimarães faz fechar e pixar um túnel. Chega de hipocrisia, né, Brasil. E sabe do que mais? Para mim, uma nação que se deleita com tragédias na televisão e alimenta essa máquina mesquinha que é a mídia não tem o direito de reclamar se a barriga dói de fome. Venda a televisão para comprar comida!
Se o povo não fosse tão fissurado por casos como o de Eliza Samudio, Rafael Mascarenhas, sem esquecer a menina Isabela que perdurou na mídia o tempo necessário para que surgisse um novo caso e tantos outros que preenchem o noticiário de todas as noites; ou então falando em grandes tragédias, quanto alvoroço e falatório por conta do avião da TAM, dos aviões que derrubaram as torres gêmeas, do avião da Air France que caiu no mar. Esses são apenas os episódios do ar. Tem as chuvas do Rio de Janeiro, as enchentes de Santa Catarina, a Tsunami da Índia.
Polêmica, repercussão, assassinatos que viram novela aos olhos dos espectadores. E o valor da vida, onde fica?
Ninguém percebe que essas notícias não são para entretenimento? Isso só faz sugar nossa atenção, nos cerca de um clima desagradável, hostil. Como fomos nos tornar tão imbecis ao ponto de acreditar que o mundo em que vivemos, precisa ser repleto de tragédias para ser mundo?

Written by: Angélica Manenti

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Calmaria


Aos muitos que não nos abandonam durante a tempestade e formam esse grupo que sobrevive por meio da união.

Todo caminho que tomamos é incerto. Cada objetivo pelo qual batalhamos pode nos trazer surpresas incríveis, nos levar por caminhos fabulosos, nos impor obstáculos aparentemente intransponíveis ou resultados desanimadores. Mas todas essas adversidades e glórias precisam ser compreendidas como partes essenciais da estrutura que forma nosso caráter e ajuda a moldar nossa personalidade nos tornando mais fortes; como vigas que sustentam nossa coragem. Tudo é tão minuciosamente fundamental que é preciso acima de tudo saber detectar quando uma derrota vem com o intuito de nos proporcionar uma nova experiência, uma vitória de maior valência. Os dias tempestuosos são inevitáveis, mas eles são o pólo oposto aos dias de calmaria, e todo bem só existe quando confrontado por um mal.
Expostos todos esses entendimentos sobre as nuanças da vida, quero justificar a filosofia da introdução: muitos fatos determinantes têm me presenteado com recompensas as quais eu jamais imaginei que fosse conquistar, mesmo as desejando tanto. Sinto que é meu dever deixar as reclamações de lado hoje, parar por alguns instantes de questionar os desprazeres e dificuldades para enfim agradecer os bons ventos.
Essa é a prova de que mesmo uma alma calejada pelo inverno sofrido deve se acalmar e aguardar enquanto os céus se livram das nuvens mais pesadas.
Continua fazendo muito frio na Antártida, mas hoje amanheceu um lindo dia de sol e a paisagem é realmente reconfortante.

Post Scriptum: Agradecimento especial ao Teatro Mágico que me proporcionou uma grande alegria com a campanha de divulgação do novo DVD da trupe.

Written by: Angélica Manenti

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Tempestade


Há uma desavença do tempo que sela o destino com uma gota ácida de ausência. Cada angústia faz parte dos presságios sobre o impedimento da felicidade; cada juramento desperdiçado é uma nuvem que se precipita para causar a enxurrada. Perdemos-nos em meio à tempestade.
Assim como cada século – quando firma suas marcas na história – envelhece e estraga consigo uma geração inteira, mancha o caráter dos seus filhos com seus delitos e seus maus hábitos; e logo tudo quanto se desencaminha acaba por morrer.
O vento sugere desgraças quando o céu se fecha em forma de ameaça: precisamos nos proteger. Amuletos, incensos, correntes de braços unidos e pedidos desesperados não podem mais nos salvar, agora que fomos corrompidos. O dia tem a cara do fim do mundo; a insegurança não irá embora quando nos conformarmos; a natureza não irá desistir de se vingar.

Written by: Angélica Manenti

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Fernando Anitelli apresenta: O Teatro Mágico, Segundo Ato

"Sem horas e sem dores, bem vindos ao Teatro Mágico..."
O texto de hoje tem uma temática diferente: nada de pinguins. Venho lhes apresentar, teimosos leitores, o novo DVD d'O Teatro Mágico. E sabe o que é o melhor disso? Qualquer um de vocês que ficar curioso para ver esse espetáculo sem par, vai poder baixar o conteúdo gratuitamente da internet, compartilhar com os amigos e tudo o mais. Vale muito à pena conferir também por conta do engajamento com essa luta magnífica pela arte independente e pela música livre - isso tudo vai estar bem explicadinho na faixa extra do DVD que será um documentário sobre a música livre. Chega de censuras, de burocracia, O Teatro Mágico quer que o povo tenha acesso à cultura sem restrições.

Eu queria ver mais dessa dignidade no mundo, antes que fiquemos todos cegos do espírito como os doentes de Saramago; queria apreciar mais música humilde como esta, antes que caia no desespero de ter perdido o melhor da vida enquanto buscava a erudição, como o Harry Haller de Hesse; queria tomar mais gosto pelas palavras simples e me agarrar a elas como a maior das esperanças, feito a Liesel Meminger que roubava livros, do Markus Zusak; queria que outros tantos me ensinassem a questionar mais a vida assim como o filósofo-pai de Hans-Thomas o ensina n’O Dia do Curinga do Jostein Gaarder; queria ter a valentia para encarar o mundo com todas as suas batalhas como se fossem as belas histórias de cavalaria do nobre Dom Quixote, de Cervantes; queria descobrir a beleza da natureza inocente como aquelas crianças que encontram a Nárnia de C. S. Lewis; queria a simplicidade dos nossos brasileiros-guerreiros descritos nas páginas-veredas do Guimarães Rosa; queria ver mais gente reivindicando seus direitos com a força de vontade daqueles defuntos infelizes, vítimas do Incidente em Antares do Veríssimo; queria o suor dessa gente pobre que nunca desiste ardendo na pele de quem rouba do nosso país, tanto quanto doía no nordestino Fabiano e toda sua família de Vidas Secas, do Graciliano; Sentia que talvez fosse necessário evocar a magia do mundo de Harry Potter para dar um empurrãozinho nessa luta, mas percebia logo que isso era distante demais da nossa realidade; queria mulheres de fibra que não se entregam antes de conquistar seu devido lugar como a poetisa Adélia Prado, ou como a perturbadoramente genial Clarice Lispector; faltava a poesia do Quintana para embelezar a obra da vida, e a poesia do Drummond para retratar as imperfeições indispensáveis; faltava se concretizar nos corações de verdade o amor guardado no coração do Caio Fernando Abreu. Faltava tanta coisa.
E eu encontrei um pedacinho disso tudo junto numa coisa só, uma centelha de cada um desses personagens admiráveis, um bocado a mais de esperança no espetáculo que é O Teatro Mágico.
E é tão bom saber que vai ter muito mais dessa fantasia, mais poesia, mais arte feita com o coração para tocar no coração; é bom demais poder encher de alegria os olhos e os ouvidos com mais um DVD da trupe. E o DVD é deles, é seu e é nosso, porque o Teatro Mágico faz para o público.

Written by: Angélica Manenti
mais informações no site: http://oteatromagico.mus.br/

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Noite sem Marcas


Não me leve para casa ainda, quero esperar o sol nascer para rever aquelas cores. Ainda consigo sentir o gosto do seu beijo no último anoitecer e o sabor do sangue em seus lábios mordidos.
Todos nós temos uma doença que viola nossas lembranças e nos consola; uma inspiração que nos tortura; uma mazela que intriga todo sonho e recobre com uma névoa espessa toda nossa coragem.
Você e eu dividimos a mesma pele quando nos matamos para juntar nossas almas no sacrifício, mas tudo muda muito rápido e amanhã podemos estar vivas outra vez; então aproveite esse momento e aprecie a queda, sinta o cheiro enjoativo da esperança e permita se extinguir. Fomos nós que pedimos para não sermos mais feitas de carne, osso, sangue e lágrimas; uma súplica impensada nos atirou às cobras. Por quanto tempo ainda vou ter de esperar? Eu a vi se retirando, mas ainda restou em mim uma veia pulsando enquanto eu me deparava com o chão sólido e tomava consciência da dor que viria com o impacto. Eu fiz isso tudo por você e agora descubro que o amor não se resolve só porque chegamos ao fim.

Written by: Angélica Manenti

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Limite da Ausência


Estes diários estão saturados de confidências sobre você; nossos amigos não suportam mais me ouvir contar histórias sobre como você desapareceu; eu não agüento mais conviver com o flagelo de um amor tão torto e improvável. Como pôde perdurar por todo esse tempo sem que um mínimo de realidade o sustentasse?
Não há sequer um dia que essa esperança arrogante não me tome. Às vezes um ínfimo raio de lucidez tenta me alertar de que eu preciso me desprender desse mal que se instaurou até na mais insignificante célula do meu corpo; uma semente venenosa que espalhou suas raízes dentro das minhas veias e se alastrou pela minha corrente sanguínea. Eu me pergunto quanto tempo falta para o amor se esvair por completo e se retirar de mim. Tento me provar que tudo não passou de um desatino e a liberdade virá logo em seguida da sanidade. Parece-me que admitindo o fracasso eu conseguiria apagar com mais propriedade essa desavença entre meu coração e minha razão; e sóbria das condições precárias da minha paixão imaginária eu lhe arrancaria da minha pele e sangraria até que todo o amor estivesse derramado, escorrendo pelo ralo como uma porção de água suja; você não iria mais manchar minhas roupas nem ocupar meus cadernos com todos estes apelos; não roubaria mais nem uma hora do meu sossego e eu não seria mais vista como cega.

Written by: Angélica Manenti

terça-feira, 29 de junho de 2010

Mas é Segredo


“(...) o veneno se refugia no espelho do armário.”

Pensei que depois de todos aqueles sinais haveria alguma notícia me esperando. Imagens do que jamais aconteceu tomavam de assalto meus pensamentos; seu nome me invadia por completo; sua mão invisível e sem vida apertava a minha com uma força surreal, impossível de ignorar; uma presença preenchia todo o cômodo, afligindo as saudades antigas que há tempos dormiam conformadas.
Já se passaram dias demais sem as distrações e seus olhos lentamente voltam a me causar desconforto quando surgem de chofre no espelho do armário, de um azul gélido e dolorido.
Até invento algumas desculpas baratas para desviar as emoções perigosas, mas acabo vasculhando os rostos que aparecem na televisão, como se subitamente você pudesse estar em qualquer lugar do mundo e certamente apareceria para mim ao fundo de uma cena sem importância na novela das oito. Imploro por qualquer sensação de reconforto no som distante do contrabaixo – na sua música da garota-veneno – lembrando suas mãos hábeis no instrumento, tentando me impressionar. Abandono o esforço e me convenço de que mais cedo ou mais tarde você não suportará mais minha insistência e cometerá uma loucura: aparecendo em minha porta sem avisar, dizendo que resolveu se encontrar em mim.
Eu tento matar essa solidão, mas estou nas sombras por você e para piorar o desespero, eu acabo de me dar conta que já se passaram quase cinco anos enquanto fui desistindo de todos os meus planos e sentindo nojo dos erros que cometi. Não quero mais discutir sobre o que é sensato e o que pode me prejudicar; quero informar que não resta saída.

Written by: Angélica Manenti
Trecho do início: Os insetos interiores, d'O Teatro Mágico

terça-feira, 15 de junho de 2010

Abandono da Dor


Que se percam de uma vez por todas essas palavras arredias, agora que já não se faz necessário agradar aos olhos de ninguém; e eu que já fui tão dada aos desesperos agora não sinto sequer um esgar de angústia. Olho com tão pouco apreço as aflições de uma alma desanimada, que acredito mesquinha a atitude de explorar estas culpas no papel. Constatado ser hipocrisia eu me aproveitar dos seus ouvidos pacientes para gastar minha cólera, eu enfim não encontro mais uso nestes desabafos sôfregos, repletos de vielas escuras e sem saída. Acho os sentimentos mais comuns tão afetados de exagero que os rejeito; e assim, em meio ao asco da fome, à indiferença do sono e a sujeira do medo, eu renego a mim mesma por inteiro. Expulso meu espírito para fora de mim, a fim de que ele crie suas pernas e vá se esgotar sozinho, livre da ironia de me manter viva.
Aceito alguma leitura que me foi recomendada com a esperança de me deparar em linhas alheias com alguém que tenha herdado o dom de me descrever com a coragem que eu jamais tive. Busco incessantemente nos detalhes encontrar meus monstros, vasculho as saliências, e no profundo de um pesadelo eu encaro a paz. Uma paz esmagadora e indesejada que brota do abandono da complexidade. Confronto meus instintos: sou pega na armadilha da minha própria mentira. Depois de tanto apoiar minhas razões em problemas que inventei, depois de rastejar por um pesar qualquer ao ponto de acabar sentindo pena de mim eu me pego vazia; tão simples e aliviada que o próprio sofrimento não é mais capaz de me agradar e eu não consigo recordar de nada que possa me servir como pretexto para reclamar.
Tudo está perfeita e debilmente em ordem. Tudo está salvo, mas eu sonho em recuperar minha dor.

Written by: Angélica Manenti

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Uma caixa para esquecer


Por todos os lugares aonde vou me sinto amaldiçoada, como se o demônio estivesse dentro da mesma caixa em que guardei meu coração. Continuo presa às mesmas superstições, não consigo mais enxergar a beleza da liberdade. Tenho rastejado muito ultimamente, mesmo depois de ser alertada sobre a ineficiência da humilhação.
Não consigo ser nada além de mim mesma, apesar de isso não estar agradando nem sendo suficiente. Não poderia ser menos sincera, nem fingir que é melhor assim – com todas as experiências dando errado – enquanto tolero sete realidades distintas ao meu redor, me ameaçando.
Não gosto de ter meus propósitos contestados porque sou mesmo fraca de convicção e um tanto vingativa. O beijo é uma armadilha para os que se feriram no caminho, um abismo disfarçado de onde o amor não é capaz de nascer nem de morrer.
Vou gastar minha última respiração para sussurrar estas palavras à sua porta e lhe convidar para dançar com espinhos debaixo dos pés. Vou ficar obcecada pela sua música favorita só porque ela traz o cheiro da sua pele e ficou gravada na sua voz.
Essas mudanças são estranhas à solidão. Eu me pergunto como será amanhã, se a sua opinião tende a mudar, se eu sou capaz de convencer, se eu devo me dispor a esperar.

Written by: Angélica Manenti

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Às pressas, nada presta


Não vai adiantar insistir para que os pedidos sejam atendidos imediatamente; guardei a felicidade para amanhã ou para qualquer dia melhor, quando meu estômago tenha parado de rejeitar a si mesmo. Não há paz, mas também não há desequilíbrio; não há mais notícias para imprimir nos jornais de hoje. O mundo parou de girar para esperar que os amores retornem; o oxigênio acabou e os perdedores enfim se deram conta da amplitude de seus prejuízos. Falar sobre sorrisos e bons sentimentos tornou-se pecado mortal neste momento em que o mundo está beirando seu fim e todos começam a tomar consciência de serem mortais. O número de vítimas não nos abala mais; estamos preparados para tudo o que for inesperado.
Quer dizer que não vou mais precisar fazer meu exercício diário de aturar e muito menos fingir que me orgulho dessa vida mesquinha? Posso mesmo faltar ao trabalho sem estar doente e errar todas as questões dos testes que me impuserem? É dia de se entregar ao abismo, não existe mais razão para me debater tentando.
A nostalgia pode trazer à tona nossas melhores dores. Apalpando o sofrimento eu encontro palavras que realmente valem mais a pena do que o próprio paraíso; e como uma perfeita renegada eu as vomito sobre uma pilha de papéis sujos, ao invés de moldá-las em belos poemas repletos de insígnias. Repudio teorias óbvias demais para provar que sou a contradição mais persistente do universo; quero que sintam nojo da minha insensatez.
Estamos envelhecendo no limbo, incapazes de nascer e sequer de morrer. As habilidades se esvaem junto com a indiferença; a beleza é temporária ou não passa de uma promessa para um mais tarde muito distante; a covardia é o último ímpeto que nos rege até os portões de emergência quando a única atitude inteligente é fugir: escapar do tédio de tudo.

Written by: Angélica Manenti

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Escrito-Castigo


Muitos aqui não lembram seus nomes e eu queria esquecer o meu, porque admiro a capacidade de ignorar a própria história e ainda parecer satisfeito com tal. O lugar não oferece as condições favoráveis, os corredores repletos de humanos esquecidos distorcem nossos sentimentos. Quando atravessamos as horas mais agitadas do dia, eu me maltrato com as dores alheias. Uma garota com os olhos turvos de cegueira está sentada na soleira da porta soltando gargalhadas ruidosas com a revista virada do lado contrário que finge ler. Se ela continuar chamando a atenção, eles virão buscá-la. Ninguém sabe o que acontece lá dentro; quem volta de lá se nega a falar sobre o assunto. Nunca vi seu rosto antes, mas não quero perdê-la.
Eu estou aqui porque fiquei presa a um escrito que permaneceu secreto; era uma ameaça, eu precisava escondê-lo e negar sua existência, então ele passou a me perseguir e atormentar em todas as horas da minha vida, impedindo que eu pensasse em outras coisas. Estou atrelada a este desperdício, como uma âncora que me puxa para o fundo do oceano; estou perdendo meu direito de respirar.
Hoje é a sexta-feira mais cinzenta da história dos dias nublados, é a liturgia dos afogados, o céu mais propício para o fim. Mas eu imploro que desista de se afundar agora, o mar já está tão cansado de levar a culpa por suas desculpas para se matar. Um corpo pesado de espírito – lamentando suas perdas efêmeras de toda madrugada – suado de pesadelos e enrugado de desespero não é capaz de boiar na superfície: mergulha direto para o nunca mais.

Written by: Angélica Manenti

terça-feira, 25 de maio de 2010

Lou[cura


Eu exagero comprando canetas em pacotes com cem, livros que não vou ter tempo para ler, sapatos grandes demais para os meus pés.
Mas como não há delírio que não possa ser relatado, registro aqui as imagens que presenciei em um dia qualquer no sanatório:
“Aqui dentro, uma lagartixa sem rabo vira uma salamandra fluorescente; um risco de carvão na parede se torna um corte sangrento que inunda os corredores com sua infecção e não perdoa funcionários nem loucos: transmite a insanidade completa. Uma barata que atravessa a sala de recreação deserta no meio da madrugada vira um sobrevivente da guerra, com o peito carregado de medalhas de honra. Na hora da refeição é como se uma oração monótona, repetida centenas de vezes em câmera lenta invadisse todas as salas. As buzinas dos carros desesperados de pressa são as trombetas dos anjos que vêm lá do céu. O suicídio anoitece. Evite criar amizades neste lugar, é preferível estar lá fora. Não temos mais vasos de plantas para arremessar nas nossas angustias, todas as noites um homem sem nome tranca todas as portas e some; o espaço é muito apertado para correr. As aranhas tecem fios de cobre eletrificados nas grades das janelas. Não sente no chão, está sujo de humilhação; os cobertores cheiram a mofo e desânimo, mas nossos pés molhados estão congelando de frio, precisamos suportar o odor. Ácaros na neblina tornam a respiração pesada e densa, os pulmões reclamam; os sonhos se passam em preto e branco e não podem ser compartilhados. Saudades da luz do dia, porque a loucura é ainda mais pegajosa no escuro, afetada pelo medo. Um inseto asqueroso ditava frases sem sentido sob a lâmpada queimada enquanto eu as anotava. Um cachorro sem dentes arranha a porta do meu quarto, atraído pelo cheiro de lembranças mortas; talvez ele conheça o caminho para me tirar daqui. Vou exigir que devolvam meus problemas e me deixem sair porque eu prefiro me sentir viva, mesmo que longe da cura.”

Written by: Angélica Manenti

Ins[piração

SÓ A INCERTEZA

TRAZ

INS]PIRAÇÃO


Calma.
Não feche a porta ainda.
Dê uma chance para eu me apresentar: sou egocêntrica
, tenho a idade ideal para fazer besteiras, tenho um punhado de raiva acumulada e encarno bem a solidão.

Agora eu entendo se você quiser se afastar, porque estou lhe dando bons motivos para crer que sou um caso perdido.
O intrigante mesmo é que você não me faz a mínima diferença, seja longe ou aqui perto; seu problema não é de distância física, é seu gênio.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Influências


O fato é que não sinto mais necessidade de desabafar, escrevo por via de influências. Talvez tenha terminado de desgastar todas as vielas dos pensamentos sórdidos. Certamente não sou mais suicida ao ponto de escrever despedidas, nem tão conformada que possa me calar. No fim da tarde, enquanto eu caminhava em direção aos meus vinte mal vividos anos, perdi minha memória e junto dela, algumas considerações que tinha levado um par de horas para formular.
E se for cedo demais para me sentir cansada? Agora mesmo só estou divagando sobre essas hipóteses porque alguma imagem revivida me fez refletir se o tempo passou muito depressa ou se ainda resta tempo em excesso.
Meus sentidos se misturam e me confundem com o gosto dos odores; não sabem separar o que foi visto do que foi imaginado. Forço as idéias para pensar sobre qualquer coisa nova, mas minha mente se apegou ao nada.
Não suporto mais esse barulho de chuva, vestindo e tirando o casaco dezenas de vezes porque não acredito mais nesse frio acanhado que aguarda pacientemente – espreitando o caminho – pendurado em nuvens de chumbo, escondidas por detrás das colinas. Não troco meu perfume há mais de oito anos por conta da ameaça de perder as lembranças que pairam no ar, somadas a esse cheiro. Eu gostava daquela rua úmida, daqueles sons abafados entre as cortinas de sombra e pedras.
Queria mudar os móveis de lugar, pintar as paredes com uma cor diferente, beber uma garrafa inteira de conhaque quente e dançar sem culpa. Queria me importar menos, queria não permitir que as experiências me castiguem e descobrir que a época mais difícil está chegando ao fim.

Written by: Angélica Manenti

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A Troca de Pólo


Não posso ser um único pingüim: sou de gêmeos, sou várias de mim. Somos um bando de pingüins foragidos. Uma espécie distinta a cada geleira, buscando a mais branca das neves: a verdade suprema. Viajamos expostos às tempestades dos Pólos, e ouvimos boatos sobre uma Aurora Boreal repleta de cores do outro lado do planeta. Cansamos das colinas alvas da Antártida – cobertas de gelo – e passamos a buscar o brilho colorido no outro extremo do mundo. Imaginávamos que fosse um tipo de arco-íris noturno, avesso aos raios solares, adepto do escuro. Partimos em caravana, buscando um caminho seguro, perdendo alguns integrantes do grupo durante o trajeto. Este mesmo pingüim que vos fala agora já se perdeu diversas vezes.
Já aportei num cais perigoso acreditando que fossem me resgatar. Seguimos rumo ao Ártico, onde supostamente encontraríamos a Aurora Boreal, guardada por alguns inimigos e sem a mínima promessa de sobreviver. Os contratempos da jornada mexeram com os brios de muitos de nós e inúmeras vezes ponderamos desistir daquela insanidade, mas o que um pingüim poderia sonhar encontrar se não as cores do Ártico?
Colhemos informações com estranhos no percurso, apostamos toda nossa sorte na palavra de predadores dos mares. Deixamos para trás um lar seguro na Antártida para perseguir uma incerteza, e assim nos deparamos com a necessidade de confessar nossos receios. O Diário do Ártico foi escrito pelas mãos (ou nadadeiras, se preferirem) de muitos pingüins lunáticos, encurralados pelo medo de estar cometendo um terrível erro.
Precisávamos justificar essa busca para que não nos julguem loucos antes mesmo de podermos explicar.
Mas a Aurora Boreal não passava de um instante, não era fato definitivo e eterno; também não se pode engarrafar suas cores e levar uma amostra para casa. Encontramos nosso objetivo, admiramos por breves minutos e como uma facada em nossos corações maltratados, ela se dissipou bem diante dos nossos narizes. Devia haver algum engano: não viajamos milhares de léguas por aquele espetáculo tão breve. Inconformados, esperamos – ela tinha de reaparecer – nos posicionamos ainda mais ao norte, beirando o abismo do fim do horizonte. Tememos despencar da curva do mundo e cair eternamente no vazio. Não sei dizer ao certo se deliramos naquele momento, mas um vulto de Aurora Boreal nos agarrou pelas mãos e afastou do precipício. A segunda ilusão: era apenas uma lufada de vento pesado com todas as suas partículas de água semi-congelada. A decepção seguida do desespero. Deixamo-nos salvar por um engano.
Por fim ficou resolvido que voltaríamos para a Antártida com mais prejuízos do que levamos na ida. As cabeças baixas, os pés doloridos e as novas descobertas: a recompensa não vem pelo simples fato de termos nos sacrificado até o nosso limite e as coisas abstratas que parecem o lugar mais confortável e sereno para repousar não passam de poeira do deserto de gelo. E poeira se dissipa com o vento.

Justificando as metáforas: os pingüins são minhas múltiplas personalidades; a Aurora Boreal é algo semelhante ao amor; a Antártida é a sanidade e o Ártico (do outro lado do globo terrestre) são as ilusões.

Written by: Angélica Manenti

Sobre olhos, ouvidos e vozes


Seus olhos devem se fechar quando eu esclarecer minhas mentiras; você pode desejar não ter ouvidos quando eu começar a confessar que não desisti e que ainda guardo minhas hipóteses de lhe ter. Pode ser que eu não signifique tanto assim, e que meus delírios lhe sirvam apenas como distração. Provavelmente você não me admira da maneira como minha imaginação tem acreditado. Se eu tivesse certeza quanto a sua opinião, não perderia meu sono criando vagas suposições.
Eu traria sua voz até mim e a faria despejar todas as suas decepções antes que elas tornassem a lhe doer. Vejo meu violão pendurado na parede só depois da meia-noite; na hora de fazer silêncio eu me arrependo por não ter tirado um tempo durante o dia para lhe dedicar. Não podemos acordar lembranças, nem vizinhos, nem lágrimas agora; não temos licença para tocar serenatas no meio da madrugada; a vida exige que se calem as vozes mais insistentes, que sejam reprimidas as paixões, renegadas as desculpas e que os amores sejam embrulhados e esquecidos no fundo do armário.
Não guarde tantas relíquias, elas só ocupam espaço; desfaça-se das angústias e não seja tão inocente, afinal, todos tendem a se aproveitar de você.
Experimente se deitar mais tarde essa noite e considere minhas palavras antes de fechar seus olhos. Eu não estou inteiramente equivocada por ainda lhe querer. Ouça uma música que a faça lembrar de mim e pela manhã, minha voz a acordará.

Written by: Angélica Manenti

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Viagem ao Centro do Tempo


É difícil ignorar o rancor que ficou guardado junto com os flagelos. Além do que, o dia hoje era propício para o ódio: o céu nublado, um vento seco de enregelar os ossos e o cheiro de terra, paredes e roupas molhadas. A chuva nos mantém prisioneiros em cubículos apertados, qualquer tipo de comunicação se torna insustentável, as frases viram faíscas no ar. E o livro com todas essas histórias vai se escrevendo a seu tempo, escolhendo somente as páginas que lhe agradam e traçando os destinos que bem entender.
Não vou me ocupar dessas obrigações, nem vou me levantar no meio da noite para aliviar a pressão dos capítulos que teimam em acontecer. O melhor é deixar fluir, permitir que as idéias derretam até se esvaírem por completo. Não quero mais me preocupar com as frases que me perturbam e furtam o sono necessário. Não vou mais me entregar aos pesadelos que assombram todo amor não terminado.
Gasto as canetas, os espaços da memória, algumas frases de impacto e sequer sei como descrever um cenário. Eu devia ter reservado um acervo de imagens prontas, mas sempre tive preguiça de registrá-las. Eu devia me mostrar mais apta dentro dos meus próprios assuntos e argumentos, mas acabo deixando que eles me dominem. Não rasgo as folhas que considero inadequadas e sempre termino me rendendo a elas, expondo minha consciência e apostando na sua experiência.
Recuso todos os meus defeitos, queria que outros olhos me enxergassem ao menos uma vez e que não me avaliassem de antemão. Queria menos exigências e um pouco mais de palavras despojadas. Queria mais motivos, mais revoltas, mais vestígios para começar a procurar. Ainda não foi possível recuperar os traumas da abstinência de presença. Às vezes ainda me interrogo enquanto miro qualquer alvo indistinto através da janela na esperança de flagrar os movimentos do mundo iniciando sua inversão, mandando o tempo de volta a algum ponto do passado.

Written by: Angélica Manenti

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Bilhetes à Solidão


Queria lhe agradecer por ter me ensinado que andar com a cabeça erguida pode mudar o modo como as outras pessoas me vêem, e por me lembrar todos os dias que eu não devia me curvar às ordens de quem não tivesse feito por merecer o meu respeito.
Confesso que quando a vi através do vidro naquela noite, despejando carinhos em outros lábios senti uma espécie de remorso por ter sido tão covarde. Descarto estas idéias: não posso sentir ciúmes e muito menos saudades. Se eu quisesse mesmo lhe conquistar, bastava um esforço mínimo e qualquer conversa mal intencionada. Por sorte não são todos os dias que confronto esses pensamentos. Às vezes sou mais decidida: escolho o outro lado da calçada e até consigo disfarçar um sorriso; mas ainda não rasguei todas as nossas fotografias e nem parei de escrever sobre você.
Aprendi a aproveitar as escorregadas dos tolos; tornei-me conhecida usando do sucesso de outros; espalhei-me em suas confusões. Faço promessas em troca de favores e depois desapareço. Sou uma enganadora sem escrúpulos, perdi a capacidade de sentir pena.
Não me sinto bem porque há uma dor lograda no fundo da minha alma. Mas por que diabos eu estou falando de alma quando eu sequer a sinto dentro de mim?
Uma lacuna parece nunca se preencher, mesmo com todas as minhas investidas em amores de esquina. Um vazio se instalou no pensamento que há muito perdeu sua ocupação fútil de amar. Roubaram os meus motivos para lamentar. Talvez seja uma grande injustiça eu reclamar que me falta alguém, considerando que isso me priva dos trabalhos de me sacrificar. Os números de telefone para os quais não pretendo tornar a ligar, o tempo perdido – imaginando rostos e gostos – que não vou mais gastar.
Deve ser mesmo uma vantagem estar assim: sem nem um dilema para atravessar, obstruindo as passagens. Que chova a noite inteira, eu não preciso ir lá fora. Esqueçam minha dedicação, nada disso me interessa mais. Joguem meus presentes no lixo, porque eu nunca tive a decência de lhes confessar: isso só provava que eu daria tudo para ir embora, mas não sabia como me despedir sem lhes machucar. Que considerações mesquinhas estas. Ser verdadeira ao extremo soa tão agressivo.
Eu me esquivava da vitória por receio de descobrir a sensação de estar no topo; tinha medo de a ambição me dominar, soterrar meus princípios e me fazer delirar. Quem sabe se eu estava só compreendendo o quanto sou vulnerável quando estou com a razão. Quem sabe eu merecesse perder a modéstia e aprender a me gostar.
Assim eu aproveitava minha loucura como um pretexto para magoar olhos e corações aleatórios, me divertindo e me perdoando com a única desculpa de ser livre e egoísta.

Written by: Angélica Manenti

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Mar de Gelo


Hoje é dia de desfazer. As águas levando embora lutas, sonhos, planos e muralhas. Os martelos derrubando paredes inteiras: abrindo fendas, desvendando segredos que se acumularam durante anos junto com o pó, trazidos pelo vento. Se mais gente tivesse a oportunidade de compartilhar desse barulho... O som do caos acompanhado do ruído suave de uma chuva que se sabe exagerada e não tem pressa para terminar de cair. Se mais gente demonstrasse consideração e não lavasse suas mãos quanto aos problemas ao seu redor, acabariam os desafetos.
O primeiro passo é analisar o que deve permanecer e o que poderá ser aproveitado depois. Naturalmente, o mais sensato seria destruir tudo e recomeçar do nada, mas a memória faz suas próprias leis e não aceita conselhos vindos de fora. As coisas novas dificilmente encaixam nas antigas, têm padrões diferentes, portanto exigem ajustes que agridem suas formas originais. Certamente nada mais funcionará conforme o desejado, assim como não há maneiras de encobrir o passado.
Há dias que beiram o desespero: parecem os últimos, insistem para que a gente desista. A solidão sufoca feito nó apertado, ameaça nos afundar num mar congelado. Noutros a liberdade me alimenta e anima: não estar presa a alguém me permite navegar tranquilamente, alheia aos obstáculos como se estes fossem incapazes de me atingir.
Na falta de luz eu me oriento no escuro. Não tenho medos que me impeçam de continuar quando todos os faróis se extinguem. Não há nada que me prenda ou me proíba de viajar. Eu sou daqui, mas gosto de estar em todo lugar. Eu não sou propriedade: nasci com a habilidade de escapar por entre os dedos. Não me esforço para entender aquilo que não cabe a mim. Não costumo perder meu tempo ouvindo desculpas e justificativas que só fazem me cansar.
O corpo começa tentando rejeitar a aproximação, até perceber que não dará conta de expulsar. Por fim se vê obrigado a ceder, então abandona sua persistência: adquire a doença e abraça seus castigos aprendendo a conviver com eles antes que seja engolido. Agarrado à esperança de que tudo irá se retirar por conta própria algum dia.

Written by: Angélica Manenti

terça-feira, 11 de maio de 2010

Imperativo


Não quero mais dar importância às mesquinharias, recorrendo aos meus declínios para suprir meu ego. Tenho novos horários e estou escrevendo em momentos impróprios, desviando minha atenção. Parece-me que falta tanto a dizer e eu nunca consigo ser completamente direta.
Seu tipo de raciocínio não me atrai; eu gosto da liberdade depois de ter feito um punhado de besteiras, não quero que me envolvam demais. Vou sempre agir com displicência se você estiver esperando que eu me importe; vou me apaixonar quando tiver quase certeza de que é impossível e só vou me interessar quando eu souber que não sou capaz de alcançar.
Sou de liberdade bem resolvida e conquistada, arrancada de seu recôndito à força. Alguns lugares já estão ocupados por aqui, não tente se aproximar. Eu não sou volúvel, conquistável. Não sou fácil de convencer e não estou à mostra para ser adquirida. Faça-me um grande favor e caia fora da minha vida, antes que eu fique sabendo de novos absurdos sobre você. Critique minhas atitudes, espalhe para todos ouvirem que eu me contradigo, envenene as pessoas contra mim, mas desapareça da minha frente: vá se ocupar. Vá viver antes que eu lhe prefira morta; vá sofrer por qualquer razão desprezivelmente superficial antes que eu resolva pisar nas suas piores feridas; vá escolher um amor sem medidas antes que meu ódio lhe respingue e queime seus olhos.
Baixe suas armas, eu não vim lhe intimar para um duelo. Desejo apenas que se retire de cena e me deixe continuar tranqüila pelas ruas nas quais estou acostumada a caminhar.

Written by: Angélica Manenti

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Segredos Rasgados


Eu ainda pareço confiável. A semana começou mal: cheia de dores e dúvidas. O receio declarado à segunda-feira. Não por preguiça, mas por medo do que o resto dessa semana possa me forçar a atravessar. Acordei atrasada: preciso correr e dar um jeito de ocupar a minha estante tal como foi combinado. Reviraram meu passado, prometeram notícias enquanto eu confessava meus pecados e contava o que sabia sobre o amor. Pode ser que hoje eu enfim descubra o que se passou. Arranquem-me o conformismo. Estou aflita – maltratada – sinto-me suja, sofri arranhões profundos que não vão parar de sangrar. Estou com os meus dias contados e não paro de me estragar. Gosto do improvável, de me perfurar. As novas feridas são sempre aterrorizantes e atraentes, convivem comigo e me convencem de que algo muito pior virá para me fazer esquecê-las.
Os danos reparados, eu quero uma tarde de silêncio. Os sofrimentos perdoados: vou querer que alguém passe a mão nos meus cabelos até eu adormecer, como uma nuvem de paz. As cenas imaginadas: vou temer que se realizem ou que me destruam devagar.
Irrompe a esperança dentro de mim e eu brigo para matá-la, eu quero me afogar. Preciso me impedir de relutar contra as convicções que demorei tanto para conquistar.
Morra de mim, fantasma, eu quero me salvar. Deixe que eu ame outras pessoas, me solte para eu caminhar sozinha, sem essa sua voz dentro da minha memória a me torturar. Não fique se comparando a elas, lembrança egoísta, eu não quero ser obrigada a te violentar.

Written by: Angélica Manenti

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sistema Incompleto


Quando provo um novo sabor e imediatamente passo a me perguntar o que poderá vir em seguida. Quem se dedica a inventar as coisas novas? Por quanto tempo o mundo suportará as criações inéditas antes de entrar em colapso?
Dá mesmo a impressão de não haver mais espaço; vejo o planeta se sentindo a cada dia mais pesado, repleto de inventos e argumentos para defender suas respectivas utilidades; uma humanidade sobrecarregada de praticidades que exigem cada vez mais operários trabalhando para proporcionar conforto a outros trabalhadores.
Ninguém descansa nesse sistema de trocas ingratas: surgem, a todo instante, funções para suturar as falhas nascidas em um outro nível da cadeia que antes parecia ideal. Para o sono das exigências, alguém precisa fazer mais café; para o tédio da rotina é essencial que se abram novas portas rumo à diversão; para a exaustão dos compromissos sonhamos que sejam criados mais feriados obrigatórios.
Temos muito mais lâmpadas acesas, muito mais gente planejando viagens para o fim do ano, um sem fim de barrigas gritando sua fome e as carências do mundo penduradas por fios de telefone. Contudo a busca por se completar jamais cessa. Ainda falta... Alguém faz falta e as faltas podem nos reprovar. Portanto é nosso dever estarmos no nosso lugar sempre que nos for imposto. Desviar uma rua do caminho habitual pode comprometer todos os demais horários pré-determinados. Parar para observar pode significar um atraso fatal. Contestar uma ordem pode custar um preço que ninguém está disposto a pagar.
Assim nos mantemos sóbrios da obrigação, centrados na direção que deve ser seguida e conformados com a nossa condição de não ser.

Written by: Angélica Manenti

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Enterro dos Erros


Os desenhos que desisti de colorir; a vida que esqueci de dar sentido. Assustam-me os momentos de paz; agride-me o desejo de ainda pertencer inteiramente a ela. Tenho evitado as escadas, as margens de lagoas e as calçadas quadriculadas que refletem nossas melhores lembranças. Não ando mais de mãos dadas com ninguém, não permito que acordem na minha cama no dia seguinte, que revirem meu armário nem que escrevam recados no meu diário. Todos esses lugares que sempre pertenceram a ela. Não suporto que acendam o cigarro – especialmente os da marca preferida dela – perto de mim, que usem o mesmo perfume ou que tenham os olhos da cor dos dela. Não envio mais flores – em hipótese alguma gasto as nossas rosas brancas – e não escrevo mais sobre amor. Jamais da forma como a descrevia.
Prefiro reclamar do cotidiano, acho mais sensato dormir para evitar os pensamentos noturnos e a saudade das nossas madrugadas conversando. Não aceito que usem minhas camisas nem que prendam o cabelo com meus lápis de cor à maneira dela. Deixei de gostar das palavras: mandei que a vida seguisse por si só, alheia ao meu esforço e que me levasse tal qual a correnteza de um riacho arrastando os barquinhos de papel. Um dia deságuo no mar e talvez encontre nele uma imensidão digna de ser comparada a ela, ou que seja apenas sal. Talvez eu desista sempre que sentir o desconforto da ausência e por algum motivo eu correria para bem longe, sem nem ao menos desejar chegar. Vou me isolar para poder evoluir; vou me esconder para que me esqueçam; vou me perder para não receber mais notícias. Cansei do seu nome, de aguardar um sinal e procurar por pistas em meio ao que foi dito. Ela não era de plantar vestígios, sabia bem como apagar o próprio rastro e deixar um lugar vazio.
Enquanto não me livro da imagem dela continuo a lhes entediar com estes absurdos carregados de sentimentalismo barato. Sei detectar quando me torno inconveniente e repetitiva, mas isso é extremamente necessário agora, para que não se estenda além desta confissão.
Que se enterrem os amores de ontem, e não pretendo sinalizar o local para evitar que um impulso me leve a tentar resgatá-los. Preciso treinar esses gestos e ensaiar meu discurso de despedida para que mais tarde – quando tudo conspirar contra mim outra vez – eu não caia na mesma armadilha de perdoá-la.

Written by: Angélica Manenti

terça-feira, 4 de maio de 2010

Irônicas Controvérsias


Eu tinha esses desejos inconsoláveis: queria que todos os moradores da minha rua – ou quem sabe de todo o bairro – abrissem as portas e janelas de suas casas à noite, que me fizessem companhia nas horas sombrias.
Dizem que não é mais seguro passar a madrugada sozinha, na varanda, fumando alguns cigarros. Aliás, dizem que fumar causa câncer, que bebidas alcoólicas são prejudiciais, que sexo é perigoso, que se apaixonar é sintoma de carência. Contudo dizem que seres humanos são dotados de liberdade – adeptos natos do livre arbítrio – mas que extrapolar os limites não é saudável. Nasce então à confusão, o desejo de se rebelar e protestar todas as regras, desde a primeira.
Dizem que é preciso aproveitar melhor o tempo, aprender a tocar algum instrumento, praticar exercícios, treinar o raciocínio, ganhar uma quantidade razoável de dinheiro – fruto do esforço – ler bons livros, ir à praia, apreciar a arte, plantar algumas árvores, ouvir músicas de variados estilos, fazer caridade, preservar a natureza, sorrir para as pessoas na rua, tomar conta dos animais, fazer seis refeições diárias, cuidar das unhas e do cabelo, tomar todas as vacinas regularmente, sempre escovar os dentes depois de comer, trabalhar com extrema dedicação, estudar ininterruptamente até alcançar uma formação invejável, carregar muita informação, dormir no mínimo oito horas por noite e acordar de bom humor.
Mas quem, diabos, acreditou que há tempo para tanto? Quem está disposto a gastar a vida com obrigações, privações e recomendações?
Não somos máquinas que aceitam ser continuamente reprogramadas: não somos nada. A diversão não é um suvenir, as amizades não são o segundo plano, o amor não é supérfluo que se pode evitar para economizar. Não podemos nos sentir preenchidos só com os desastres que assistimos na televisão, nos remediando com a promessa de dias melhores, de soluções para o futuro. Não se pode agarrar a expectativa de que o clima será sempre agradável ou que parem de nos colocar em teste. Não podemos viver de esperança, muito menos voltar a ser criança: não podemos cometer o erro de tropeçar e sequer rir de quem cai. Não devemos lamentar as perdas nem acreditar que aquilo que nos restou é o suficiente.
É preciso ser discreta e também se destacar; ser independente, mas sem nunca negar ajuda a quem dela precisar. É fundamental ser diferente, mas sem fugir ao padrão nem exagerar.
O que eu sinto? Vontade de gritar.

Written by: Angélica Manenti

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Princípios

A hipocrisia é um artifício dos fracos, o orgulho é uma manobra dos desacreditados, o romantismo é um pretexto para os descontrolados, a humilhação é o castigo dos alienados. Acordei no meio da noite, incomodada com o barulho, arrancada de um pesadelo que me deixou preocupada por sair sem solucioná-lo. Os crimes bárbaros sem punição. O método falhou mais uma vez. A desculpa não convence mais. As idéias esgotaram. Tudo o que me envolve – o que ouço – o que me ensinam e o que vou contra. Não carrego objetos que não me pertencem; não insisto em esquemas defeituosos. Nós conversamos pouco, eu não a percebi. Gente espirrando regulamentos ao meu redor, me dizendo para desistir: os pensamentos fracos, eu me entrego a conselhos mal dados. Amo por comodidade, por preguiça de procurar melhor. Esqueço – a partir da primeira dificuldade. Eu tenho a idade que me convém; a oferta de solidão é que me faz sair e buscar contato, não suporto mais o meu quarto, os espaços fechados. Não estou voltando, não vou procurar por ela: as coisas podem não acontecer tal qual o esperado. Nós deveríamos testar antes de fugir, eu sei; dar o tempo para gostar. Não sabíamos se era o momento de parar, mas eu tive a impressão de que ir em frente só iria decepcioná-la.
Minhas falhas anteriores ficaram tão pegadas à minha memória, eu detesto as minhas histórias. Deixei passar a chance de criticar tantos absurdos que me indignaram, e hoje me sinto desanimada a tomar qualquer atitude sensata. Passou, comigo me privando. Permiti que se fosse com os meus princípios, e assim decretei nosso fim.

Written by: Angéica Manenti

Objeto Indireto


Conformismo às avessas: desisti de mudar o mundo. Decepciona muito perceber que as coisas não poderiam ser de outro jeito mesmo. A pobreza, a tristeza, os amores mal vividos, as guerras, as diferenças e todo o desequilíbrio têm mesmo de ser assim, é essa a harmonia do sistema. Nossos olhos e ouvidos necessitam ser feridos diariamente com certa dose de caos, de medo ou de luxúria; nossas cidades precisam ser sujadas, porque o dever de alguém é varrê-las. Nossas almas precisam ser feridas, porque nós só vivemos se acreditarmos que o dever de alguém é curá-las. São as incertezas do dia que comandam nossa alegria; é o desespero que nos dá forças; são as despesas do mês que sugam nossas economias; é de barriga vazia que o brasileiro sobrevive.
De atrasos, cópias, mazelas, culpas, insatisfação, medo: nosso mau-humor. O tremor que nos aflige quando andamos sozinhos na rua, já tarde da noite; medo do assalto, ainda indignada porque o mundo está coberto de asfalto, as dores do parto, jovens morrendo de infarto. Não temos tempo pra nada, precisamos de tempo pra recomeçar, queremos que o tempo passe depressa, porque é insuportável esperar.
Quando vi as ruas passando, na contramão, e eu ali de costas, achando incrível o movimento inverso da vida deixei de me sentir tão frágil. Meus olhos enxergam longe demais, e além. Ainda escrevo frases duvidosas, mesmo depois de tanta prática. Ainda sinto aquelas coisas que me proibi quando ela permitiu que eu fosse embora. Embora eu sinta que era melhor eu ir primeiro, do que esperar pelo abandono. Tudo bem, já faz um bom tempo e eu deveria ter aprendido que não dependo dela para crescer: agora sim estou livre para ser o que bem quero.
Diga-se de passagem, que de sujeito de qualquer circunstância eu passei a ser objeto. E nem é direto.

Written by: Angélica Manenti

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Ossos alheios


Uma enxurrada de palavras borbulhava em minha mente – hora errada; o caderno está longe, o veículo em movimento – impossível escrevê-las antes que se percam. Todos os meses é o mesmo dilema: é preciso cortar o cabelo, cortar os gastos, cortas as unhas, cortar as festas, cortar os retratos antigos. Uma vida de lâminas sempre afiadas; histórias com finais mal contados. Eu a abraçava como quem abraça a uma serpente, preparada para dar o bote a qualquer momento: venenosa. Perpassada de rancor e medo – dos seus olhos dissimulados e frios – eu guardava esse vendaval de sentimentos antes que me comprometessem. Assumi-los seria submeter-me a minha própria verdade.
Quando gasto meus dedos procurando uma fuga para minha aflição é porque não sou mais capaz de confessar. Os problemas nunca se firmam realmente claros, e eu me pergunto o que pode estar me deixando tão irritável e intolerante. Provavelmente alguma ausência, uma saudade sem nome. Desisti de compreender e parti para as válvulas de escape imundas: constantemente jorrando ódio, como um animal guloso, faminto e carnívoro, esbravejando, gritando insolências. Meu vocabulário tornou-se impróprio, as palavras sujas escorrem entre meus lábios sem que eu tenha tempo para contê-las – num tom ríspido – com um olhar de ameaça. Deve ser culpa dessas malditas amarras que sinto prendendo meus membros. Queria desabar de uma escada e quebrar alguns ossos para poder sabê-los meus.
As diversões moram em outras cidades, meu inferno é um rosto pálido desaparecido no outro lado do país, meus sonhos são precários, difíceis de recordar: lembro-me apenas de ter acordado com ela doendo em mim, fisicamente. Ela que sempre foi sofrimento desperdiçado, decididamente o percurso mais infeliz e o esforço mais mal gasto. Todos os dias ter de tomar coragem para dar o primeiro passo, porque é preciso ir a dezenas de lugares, mesmo com as pernas ardendo em cansaço e desgaste.
Lembrar de não reclamar: porque ninguém vai se importar com as suas dificuldades enquanto há uma multidão de desgraçados e um sem fim de catástrofes acontecendo lá fora. Qual seria o som da liberdade se ela de fato existisse? Imagino que você tenha pensado em pássaros assoviando e uma brisa suave e fresca em seus cabelos e rosto. Ora, não se engane: isso não passa de um instante. Nem mesmo o alardeado “salvador da humanidade” conseguiu ser eterno; e depois de tanto espetáculo repleto de dor e sangue ainda existem tantos que descarregam blasfêmias no papel sem sentir o mínimo de culpa.
Que cor teria o céu durante o primeiro beijo com seu primeiro amor? Você só pode ter pensado numa mescla em tons de vermelho, cor-de-rosa e dourado; mas vá lá, se é o primeiro como você pode afirmar que é amor? Qual é o intuito de um cenário perfeito se os olhos se fecham? Acredito que a maioria das pessoas jamais notou.

Written by: Angélica Manenti