quarta-feira, 4 de junho de 2014

Trilha Sonora

     A trilha sonora do nosso amor era completamente brega. Mas afinal, o amor é brega, e então eu tinha ainda mais certeza de que era amor. Especialmente quando ela cantava, desafinada mesmo, olhando bem dentro dos meus olhos como se cada palavra estivesse sendo dita para mim.
     Aconteceu que esses dias eu ouvi uma música que certamente teria sido nossa. Dessas músicas que tocam quando aparece o par romântico da novela e que causa um arrepio inconsciente no nosso corpo. Eu quis reviver a nossa história, ou emendar mais uma continuação, sei lá. A gente foi e voltou tantas vezes que eu não sei nem se vivíamos de reviver ou se tínhamos uma capacidade incrível de reinventá-la.
     Mas eu não ignoro os fatos. O tempo já se esgotou, eu estiquei o prazo da espera e tudo continua tão inerte quanto no dia em que ela pôs um fim em tudo. Apesar da esperança pálida que conservo comigo, eu sei que ela não vai mais ressurgir de repente como fez das outras vezes. Acho que ela nem teria mais como me encontrar, porque há um tempo eu me convenci de que era hora de me desintoxicar dela, de destruir as pistas e então eu parei de deixar vestígios em lugares que ela pudesse acabar procurando um dia.
     Eu largava essas migalhas de mim por onde eu passava, durante muito tempo, porque eu queria que ela tivesse meios de encontrar o caminho de volta, enquanto eu buscava uma explicação racional que justificasse tudo ter terminado. O que eu não conseguia enxergar era que não havia explicação.
     Ela tinha dezessete anos e não gostava do que via no espelho. Queria mudar, queria ser capaz de agradar à família, cansou de decepcionar. E eu amava exatamente o que ela era, com todas aquelas crises de humor, de identidade, de liberdade. Eu não queria permitir que ela precisasse mudar, não admitia. Se ela não gostava de si mesma quando estava comigo, então eu estava mesmo em desvantagem e era apenas uma questão de tempo até que eu perdesse.
     E eu sei que hoje ela está muito diferente, eu dei um jeito de espiar. Não sei se ela está satisfeita, porque aquele sorriso não nega uma tentativa de disfarçar. As mudanças foram tantas que eu nem a reconheço mais. E quando o telefone toca – ele raramente toca – e eu preciso me concentrar para não me deixar dominar pelo desejo impiedoso de que seja ela, eu penso que não reconheceria aquela nova voz, não saberia a quem pertence aquele número, não entenderia aquela tentativa súbita de voltar. Talvez eu deixasse chamar até a ligação cair, só para ouvir até o fim aquela música que eu queria tanto que fosse nossa. Eu deixaria passar, e ela desistiria, porque nunca quis de fato tentar.

Post scriptum: A música que inspirou esse texto foi "Só Vejo Você", de Tânia Mara. Podem rir, é brega mesmo.

Angélica Manenti