quarta-feira, 27 de junho de 2012

Muito perto do céu

Inspirada na música Beatriz (Composição de Edu Lobo e Chico Buarque) - para ouvir a música interpretada por Ana Carolina, clique aqui.

Num bairro não muito distante do centro da cidade se ergue mais um edifício acinzentado, em meio à selva de concreto que se instalou em lugar do que um dia foi natureza. Em cada uma daquelas luzes quadriculadas tão minúsculas vistas de longe se desenrola a vida de tanta gente sem nome e sem um rosto definido para Leonardo, um morador pacato e silencioso que sobrevive de comida congelada. Todas as outras janelas têm horário definido para apagar as luzes e decretar o fim de mais um dia na vida medíocre da classe média. Leonardo não acompanha esse ritmo, é um forasteiro da própria vida, e é durante as horas frias da madrugada que o frustrado e solitário ex-professor universitário - impedido de trabalhar por um problema grave de dicção - senta-se junto à janela da sala, com uma caneca de café fumegante e observa sua musa misteriosa.
Ao lado do tímido edifício, um imponente arranha-céu termina de esconder todas as estrelas da noite e o que mais a vista pudesse oferecer a Leonardo. No último andar deste, Beatriz gasta as madrugadas ensaiando para sua estreia como bailarina no Teatro Municipal. Uma menina dedicada que ganhou as primeiras sapatilhas de balé da mãe, poucos meses antes desta última falecer e decidiu que se tornar uma bailarina famosa seria seu maior objetivo. Beatriz tinha apego pela perfeição, e a cada vez que repassava a coreografia, tentava imaginar como seria lidar com a pressão e o nervosismo da estreia em um palco tão almejado. Durante muitos anos, Beatriz dedicou-se exclusivamente ao balé, tinha a postura ideal e um rosto de traços muito singulares, os movimentos leves e a delicadeza de seu andar lhe imprimiam um ar de fragilidade, como se ela fosse se partir a qualquer momento.
Leonardo nunca ouviu a voz da moça, jamais sequer pôde sentir seu perfume ou verificar de perto se seus cabelos eram tão macios quanto aparentavam; ele apenas observava através da janela enquanto uma infinidade de questionamentos lhe vinha à mente. Algumas vezes chegou a pensar que a moça talvez não existisse, ou que fosse fruto de sua imaginação ou uma trapaça do próprio cérebro saturado de personagens fictícias dos livros que devorou ao longo da vida. Mas geralmente se convencia de que aquela criatura tão angelical estava mesmo ali, no prédio ao lado, flutuando insistentemente na mesma coreografia há semanas. Será que ela sabia que Leonardo a observava? Será que algum dia reparou também na luz acesa do outro lado da rua, quando todas as outras já se haviam apagado? Ele gostaria de ter a resposta para todas essas perguntas, mas a covardia o impedia de se aproximar da jovem bailarina. O que ele não podia imaginar era o tamanho da solidão que ela enfrentava, e as lágrimas que encharcavam seu travesseiro todas as noites, quando ela se lembrava de tudo que perdeu. Uma voz insistia em sussurrar para ela que nada mais valia à pena, e que todo seu esforço seria em vão.
Beatriz era um desejo silencioso, uma amostra de vida celestial enviada para brilhar diante dos olhos daquele poeta que deixou de viver a realidade e passou a imaginar como seriam os dias com ela, achando que a felicidade existia, mas estava presa no topo de um arranha-céu que ele não podia escalar. Numa dessas noites, quando Leonardo se preparava para repetir seu ritual de observação junto à janela, percebeu que as luzes do último andar não haviam se acendido, e por outras três noites seguidas não tornaram a se acender.
Inconformado com o repentino sumiço da bailarina, numa manhã de sexta-feira, Leonardo acordou cedo, como não fazia há algum tempo, desceu até a rua, andou até a portaria do prédio de Beatriz em busca de vestígios, os quais ele inconscientemente sabia que não encontraria, então decide caminhar um pouco para refrescar as ideias. Próximo a uma parada de ônibus, a algumas quadras de casa, Leonardo avista um cartaz com o rosto de sua musa estampado. Beatriz - estreia nesta sexta, no Teatro Municipal, às 21h. Então era esse o nome dela. O covarde apaixonado resolve ir assistir oficialmente a coreografia que teve o privilégio de acompanhar desde o primeiro ensaio, acreditando que estará seguro em meio à plateia, sendo apenas mais um espectador. Já desabituado a se vestir para sair, vasculha o armário à procura de seu melhor terno, chega cedo ao teatro e faz questão de comprar um assento nas cadeiras do meio, como se por ventura Beatriz fosse encontrar seu rosto em meio aos pagantes e pudesse reconhecê-lo.
Os minutos antes da hora marcada se arrastaram preguiçosamente. Leonardo se revirava na poltrona, buscando uma posição que acalmasse o coração entusiasmado por finalmente saber o nome dela e receoso por continuar tão distante. Passou mais de uma hora e a estrela da noite não havia aparecido. A produção do espetáculo se desculpa com a plateia e pede que mantenham seus ingressos para assistirem à peça em outro dia. Leonardo pega um táxi de volta para sua vida miserável, mas ao chegar a sua rua é surpreendido por uma multidão de curiosos que parecem observar um grande acontecimento. Ele acerta o preço da corrida, desce do táxi com uma sensação de que a confusão lhe dizia respeito de alguma forma, e penetra em meio à multidão até conseguir chegar ao motivo de tudo: na calçada, uma mancha de sangue escorria, pegajosa, do corpo da jovem bailarina que se atirou do último andar do arranha-céu.

Angélica Manenti

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Um achado antigo, mas nem por isso obsoleto

Fico confusa e atordoada, achando que me falta alguma coisa, e me dou conta de que há muito tempo não escrevo. Decido então que o que me aflige é a falta de expressar o que sinto, mas descubro que no instante agora já não sinto nada.
Olho para o céu e penso em divagar sobre as estrelas, como muitos poetas fazem. Primeiro que poeta não sou, e outra que não consigo compreender o que se vê de tão especial naqueles minúsculos pontinhos que brilham lá, tão longe. É certo que essas estrelas sejam mesmo enormes, mas não aqui; não para mim que as observo cá da Terra. Acho mesmo possível que me faltem mais pessoas a quem amar nessa vida, mas de que me valeria ter mais gente, se as que já tenho muito me decepcionam e causam dor?
Encontro por vezes alguma vaga presença que me completa num momento e em outro logo me foge. Corro atrás de figuras utópicas que representam ser perfeitas e me parecem bem promessas de felicidade, mas que sequer sou capaz de alcançar. Deve ser essa a impressão que causam as estrelas aos poetas; que o brilho tanto os atrai e fascina, mas que jamais poderiam pisar. Contradição - porque não se deve desejar pisar aquilo que se admira.
Adorar é aprender que o objeto estimado é intocável. O próprio amor é uma ideia irrefutável. Creio que só a distância permite que se mantenha vivo o amor por qualquer criatura; que estando longe consegue-se ocultar seus piores defeitos, ou ao menos fechar os olhos aquilo que não se convive.

Angélica Manenti

domingo, 3 de junho de 2012

O amor mudou de cor


Às vezes os sonhos desgastam, a falta de respostas desespera, a indiferença arrebenta com as fibras do coração. Eu tenho tomado minhas providências, tenho me refeito dia após dia e encarado meus medos, defeitos e desesperos bem de perto, provando a mim mesma que sou maior do que a minha condição de romântica incurável. O meu amor cresceu, e por isso mesmo eu preciso que esse assunto seja tratado com seriedade; não posso mais permitir que alguém venha remexer meus destroços, sem nem pensar nas consequências de recolher estes cacos, antes que eu termine de me recompor.
Já ganhei feridas amargas na alma, não aturo mais desaforos, não me conformo com atitudes mesquinhas ou infantis demais. Estou madura e quero viver essa minha evolução de fato, antes que se acabem de uma vez por todas esses sentimentos que eu cuidei de cultivar com delicadeza para que não se estragassem.
Lamento a saudade que nunca deixei de sentir, mas aprendi a responder a ela com superioridade, descobri que podemos conviver sem causarmos injúrias uma à outra; lembrei que às vezes é preciso ficar sozinha, começar a acordar de bom humor só porque aí está o mundo todo se dando ao trabalho de se manter em movimento, mesmo que eu ainda não tenha me resolvido.