sábado, 22 de janeiro de 2011

A Fronha Inóspita


Essa não é uma história, é apenas o registro de uma memória:
Tínhamos uma fórmula - os amigos misturados à música, às bebidas mais variadas e aos pijamas. Juntamos tudo em uma festa barulhenta, com todas as cores da nossa bandeira. Pudera: deixaram-nos sozinhos numa casa.
Umas coisas incríveis precisam ser expostas sobre esse grupo (e me desculpem aqui se eu esquecer-me de citar alguém, porque somos como uma família em movimento: sempre tem aquele parente que aparece para matar a saudade e logo vai embora). Não temos distinção de raça, credo, orientação sexual nem qualquer outro; tem gente séria - mas que só consegue se manter séria por breves momentos - tem gente que dorme cedo - e assim passa a ser o alvo das piadas -, tem pessoas apaixonadas por outras pessoas - ou apaixonadas pela bebida -, tem gente que vive com fome, tem gente de todas as cores.
Tem meninas que preferem meninas, tem gente que gosta de um pouco de tudo, tem gente que prefere não opinar. Tem até uns que dizem gostar de outra coisa, mas ninguém acredita. Tem gente que dança porque sabe, tem gente que só sabe dançar quando bebe e tem gente que se revela quando dança. Mas o mais importante é que existe a amizade e isso não tem diferença que estrague.

Written by: Angélica Manenti
Esse texto foi escrito por livre e espontânea pressão. Desde o dia da tão inusitada festa do pijama (que durou três dias), o Rodrigo começou seu trabalho de chantagem comigo pra que eu escrevesse algo sobre a festa. E enfim no dia do aniversário dele eu lhe entreguei essa obra prima da literatura.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Consciência


A minha vida está atrasada: fico adiando compromissos e obrigações, olhando o calendário na esperança de ver que alguns dias ainda não passaram, mas os números não perdoam, o tempo está correndo. A espera é pegajosa, inunda todos os aposentos, carregada de demora. O incerto – a esperança que não tem a mínima chance de se concretizar. Acreditar na volta é só uma ilusão insensata, não há lógica nessa angústia – e eu sei – mas não aguardo a presença, apenas torço pelo fim do desespero, e que a aflição deixe de ser um drama insolúvel e intrínseco à vida.
Não há mais paisagem que me agrade, não há mais lugar que me transmita sossego. A paz não irá se manifestar em meio ao desconforto de se sentir deslocada dentro da própria casa.
A vida não espera, e nada muda se eu não começar a me mover. Eu digo que não vou mais me importar, mas quando tudo silencia e os outros pensamentos se esvaziam é aquela velha memória que assume o controle e vem me atormentar.
E eu que já fui mais simples, mais comum de sentimentos, acredito que minha solução talvez fosse retornar – voltar o filme, pausar na parte em que nada disso fazia diferença, quando eu dizia o que me viesse à cabeça. Era o tempo de não sentir medo; eu era só coragem, enquanto hoje sou um risco: arrisco poucas coisas para não passar nem perto da derrota e acabar me tornando ainda menor.

Written by: Angélica Manenti

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Contrário


Gosto da simetria e das estradas sinuosas, da harmonia e do balanço descompassado do mar; do ritmo acelerado, indigno, os corpos suados nos dias sem sol. Gosto da vida lenta, preguiçosa, demorando a passar quando a pressa nos invade forçando as escolhas, obrigando a esperar. Gosto do inteiro quando encontro a metade.
Agora eu perdi o fio da meada, me confundi num emaranhado de contradições. O tempo sempre na contramão, beirando o fim para justificar o passado vazio. Tenho sempre mais de uma opinião, estou dos dois lados, gosto de me defender, mas também preciso atacar. Estou segurando as pontas, atando os nós, mas estou sempre planejando fugir. Gosto do caminho errado porque o considero mais certo, só para provar o contrário. Não me obrigo a nada, mas me presto a muitos sofrimentos em vão por conta de detalhes. Compro dores que não me pertencem e depois eu reclamo. Gosto de causar danos e depois ajudar na arrumação. Gosto de me lamentar, embora eu saiba que a melhor cura para os erros seja esquecer.
Descansar é um segredo que eu ainda não desvendei: sempre volto muito tarde e não gosto de passar muitas horas sozinha. Não. A solidão é uma armadilha para os desesperados, empurrando em direção ao abismo, o extremo das soluções. É a agonia sem saída.
Os dois lados da moeda, o outro lado da ponte, o lado mais fraco, o lado da sorte. Gosto de observar tudo de cima do muro: transfigurei-me em neutralidade, calei minha voz.

Written by: Angélica Manenti