terça-feira, 29 de junho de 2010

Mas é Segredo


“(...) o veneno se refugia no espelho do armário.”

Pensei que depois de todos aqueles sinais haveria alguma notícia me esperando. Imagens do que jamais aconteceu tomavam de assalto meus pensamentos; seu nome me invadia por completo; sua mão invisível e sem vida apertava a minha com uma força surreal, impossível de ignorar; uma presença preenchia todo o cômodo, afligindo as saudades antigas que há tempos dormiam conformadas.
Já se passaram dias demais sem as distrações e seus olhos lentamente voltam a me causar desconforto quando surgem de chofre no espelho do armário, de um azul gélido e dolorido.
Até invento algumas desculpas baratas para desviar as emoções perigosas, mas acabo vasculhando os rostos que aparecem na televisão, como se subitamente você pudesse estar em qualquer lugar do mundo e certamente apareceria para mim ao fundo de uma cena sem importância na novela das oito. Imploro por qualquer sensação de reconforto no som distante do contrabaixo – na sua música da garota-veneno – lembrando suas mãos hábeis no instrumento, tentando me impressionar. Abandono o esforço e me convenço de que mais cedo ou mais tarde você não suportará mais minha insistência e cometerá uma loucura: aparecendo em minha porta sem avisar, dizendo que resolveu se encontrar em mim.
Eu tento matar essa solidão, mas estou nas sombras por você e para piorar o desespero, eu acabo de me dar conta que já se passaram quase cinco anos enquanto fui desistindo de todos os meus planos e sentindo nojo dos erros que cometi. Não quero mais discutir sobre o que é sensato e o que pode me prejudicar; quero informar que não resta saída.

Written by: Angélica Manenti
Trecho do início: Os insetos interiores, d'O Teatro Mágico

terça-feira, 15 de junho de 2010

Abandono da Dor


Que se percam de uma vez por todas essas palavras arredias, agora que já não se faz necessário agradar aos olhos de ninguém; e eu que já fui tão dada aos desesperos agora não sinto sequer um esgar de angústia. Olho com tão pouco apreço as aflições de uma alma desanimada, que acredito mesquinha a atitude de explorar estas culpas no papel. Constatado ser hipocrisia eu me aproveitar dos seus ouvidos pacientes para gastar minha cólera, eu enfim não encontro mais uso nestes desabafos sôfregos, repletos de vielas escuras e sem saída. Acho os sentimentos mais comuns tão afetados de exagero que os rejeito; e assim, em meio ao asco da fome, à indiferença do sono e a sujeira do medo, eu renego a mim mesma por inteiro. Expulso meu espírito para fora de mim, a fim de que ele crie suas pernas e vá se esgotar sozinho, livre da ironia de me manter viva.
Aceito alguma leitura que me foi recomendada com a esperança de me deparar em linhas alheias com alguém que tenha herdado o dom de me descrever com a coragem que eu jamais tive. Busco incessantemente nos detalhes encontrar meus monstros, vasculho as saliências, e no profundo de um pesadelo eu encaro a paz. Uma paz esmagadora e indesejada que brota do abandono da complexidade. Confronto meus instintos: sou pega na armadilha da minha própria mentira. Depois de tanto apoiar minhas razões em problemas que inventei, depois de rastejar por um pesar qualquer ao ponto de acabar sentindo pena de mim eu me pego vazia; tão simples e aliviada que o próprio sofrimento não é mais capaz de me agradar e eu não consigo recordar de nada que possa me servir como pretexto para reclamar.
Tudo está perfeita e debilmente em ordem. Tudo está salvo, mas eu sonho em recuperar minha dor.

Written by: Angélica Manenti

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Uma caixa para esquecer


Por todos os lugares aonde vou me sinto amaldiçoada, como se o demônio estivesse dentro da mesma caixa em que guardei meu coração. Continuo presa às mesmas superstições, não consigo mais enxergar a beleza da liberdade. Tenho rastejado muito ultimamente, mesmo depois de ser alertada sobre a ineficiência da humilhação.
Não consigo ser nada além de mim mesma, apesar de isso não estar agradando nem sendo suficiente. Não poderia ser menos sincera, nem fingir que é melhor assim – com todas as experiências dando errado – enquanto tolero sete realidades distintas ao meu redor, me ameaçando.
Não gosto de ter meus propósitos contestados porque sou mesmo fraca de convicção e um tanto vingativa. O beijo é uma armadilha para os que se feriram no caminho, um abismo disfarçado de onde o amor não é capaz de nascer nem de morrer.
Vou gastar minha última respiração para sussurrar estas palavras à sua porta e lhe convidar para dançar com espinhos debaixo dos pés. Vou ficar obcecada pela sua música favorita só porque ela traz o cheiro da sua pele e ficou gravada na sua voz.
Essas mudanças são estranhas à solidão. Eu me pergunto como será amanhã, se a sua opinião tende a mudar, se eu sou capaz de convencer, se eu devo me dispor a esperar.

Written by: Angélica Manenti