quinta-feira, 17 de março de 2011

Raios no Planalto


Um clarão tomou conta do céu por breves segundos: foi a primeira noite sem estrelas no planalto. Você riscou minha lembrança como um relâmpago risca a imensidão azul, tão bela e tão perigosa quanto um raio. Não consegui desviar o olhar naquele instante, enquanto sua luz me hipnotizava e ofuscava todo o resto ao seu redor. Você era intocável, só podia ser observada de longe, guardada a uma distância segura.
Você surgiu como um trovão, e o choque da descarga elétrica que rasgou a escuridão fez tremer o ritmo dos meus batimentos cardíacos. Tentei reagir, ameacei correr, mesmo sabendo que seria impossível encontrar abrigo que suportasse o peso de toda a sua destruição.
Você é a tempestade dos primeiros dias, me confundindo com sua chuva calma e fria; você é água de grandes enchentes, inundação que eu já conhecia.
Você é o engano da ausência, é a dor bem vinda, é o despertar da saudade que dormia antes reprimida. Você é a calmaria depois do furacão.

Written by: Angélica Manenti
Brasília, DF - 08 de Fevereiro de 2011.

terça-feira, 8 de março de 2011

Verdades, Veredas


Há muitas distâncias por percorrer. O bonito dos sonhos fica longe, apartado do vazio e do tédio cotidiano, exige coragem para buscar, pede que se trilhe caminhos sem chão, travessias. O estranho do desejo insiste em se afastar; a felicidade é arredia, teima em escapar. É preciso gostar das paisagens, preencher-se com a vista que passa pela janela, se contentar no simples aguardar. Não podemos nos render ao equívoco de que tudo irá sossegar no final, deparar com o completo dos sentimentos só na última rua sem saída: a vida não tem linha de chegada. Temos de reparar, acostumar com o fato de que há beleza nas beiradas da estrada.
Há lembranças demais que remoer, algumas com desgosto, doendo feito corte profundo de lâmina afiada; outras com aquele brilho dos dias sem defeitos, me privando do pior dos medos: o medo da ausência.
A saudade – essa falta nostálgica – é uma vereda sem fim. A gente implora o viver de novo, para voltar no tempo achando que estando mais pronta aproveitaria melhor, não cometeria os mesmos despeitos. A gente delira, revira e bagunça o mundo tentando entender, e depois se desculpa pela falta de sensatez; a gente reclama, se vinga do destino e depois se arrepende, implora outra chance, mas a gente só ganha duas direções: uma das mãos do diabo e outra que desce do céu.
Todo estreito de mundo tem suas armadilhas, vertentes do mal, assim como toda verdade tem as suas mentiras, duelos da alma.

Inspirado em Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa

Written by: Angélica Manenti