sábado, 27 de agosto de 2011

Algum Desabafo


Você alterou minha rotina, rasgou meus itinerários, embaralhou meus horários. E eu que ainda nem consegui me acomodar nessa pele, eu que detesto a estabilidade e admiro o desequilíbrio da sua personalidade, queria estar ao seu lado recebendo suas investidas contra mim, suportando a dor da sua indiferença e vibrando com as suas raras demonstrações de afeto próximas às despedidas.
Mas não quero escrever, não quero sentir por agora. Dentro de mim as palavras me maltratam, a curiosidade me flagela, meu espírito inquieta-se no silêncio da sua indecisão. Queria arrancar de você uma confissão, exigir meus direitos que por conseqüência da liberdade que eu lhe dei foram corrompidos. Quero meus dias de paz outra vez, sem ter que disfarçar essa melancolia degenerada que me assola. Devolva meus livros, minha memória, meus sorrisos, minha alegria. Bata a porta na minha cara, desperte meu ódio antes que esse amor impossível se torne um punhal assassino da minha história.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ironia do Destino


Eu estava lhe escrevendo essa declaração de amor quando recebi sua mensagem terminando comigo. Deve ser isso a tal ironia do destino da qual eu sempre ouvi falar.
Sei que ainda há muito por dizer – eu não estou renegando as palavras, afinal elas sempre me socorreram tão bem – mas eu estava tão imersa em você que sequer conseguia escrever, porque é a primeira vez que tenho esses sentimentos tão reais e concretos, que amo com toda a capacidade que havia reservado dentro de mim. Com você eu deixo de lado a vergonha e os pudores, me sinto livre para me entregar por inteira e respirar a eternidade dessa dança sem ritmo, esse romance insensato que já estava escrito muito antes de nos aceitarmos.
Demorei muito tempo para encontrá-la, e por todos esses anos eu lamentei estar gastando a vida sem distribuir os carinhos que guardava comigo. Por algumas vezes cheguei a me doar a quem não merecia, corri riscos sem ter nenhuma garantia e sempre acabava me livrando de algum jeito ao perceber que não sentia aquelas borboletas no estômago das quais falavam nos filmes. Queria aqueles calafrios e a sensação de não conseguir sustentar as próprias pernas; queria tremer, gaguejar, perder a respiração e a consciência, me atrapalhar com as palavras, e sempre acabava me metendo em relacionamentos mornos, que me cansavam na primeira discussão.
Com você eu tenho aquelas idas e vindas que apavoram, e a cada noite que me deito sem o seu carinho, sem as suas mãos delicadas percorrendo meu rosto, eu me preencho um pouco mais de amor e saudade; e a cada final de semana eu a encontro ainda mais linda, mais rebelde, mais incrível, e vou aos poucos me encaixando à sua maneira descompromissada para voltar a descobrir a minha essência. Com você eu volto a ser criança, esqueço que a vida pode ser cruel e que exige responsabilidade; com você o tempo pára e perde a importância; com você, cada instante é feito de intensidade, sempre beirando o início e o fim; são beijos encharcados de lágrimas, são brigas estragadas com sorrisos, são partidas adiadas pela vontade irresistível de ficar um pouco mais. E o amor é feito da nossa amizade nos momentos difíceis, da angústia nas horas de espera, da minha alegria ao vê-la furiosa só porque assim eu a percebo tão humana.
Lembra daquela nossa conversa demorada no sofá da sala? Eu ali fingindo ser uma rocha, querendo tomar para mim todas as suas dores e livrá-la das suas sinas; eu tentava entender cada centímetro da sua raiva, eu queria acalmá-la, talvez abraçá-la, mas se eu fizesse isso podia acabar fazendo escorrerem suas lágrimas. Não era um bom momento para oferecer carinhos repentinos, eu precisava me manter firme e mais nada. Nos seus olhos eu via uma esperança teimosa, querendo acreditar que tudo iria terminar bem, que você só precisava de alguém para lhe ouvir e não de alguém que lhe oferecesse o ombro para permitir que você se partisse em pedaços confessando seus segredos num instante de fragilidade.
Eu sei que não devo alterar os seus sentidos nem interferir na freqüência dos seus sofrimentos impondo minha presença no meio dessa tempestade que está dentro de você. Eu a encontrei assim, decepcionada com as injustiças do mundo e preciso estar ao seu lado para lhe apoiar, para fazer valer os seus direitos e ajudar a amadurecer as suas dores. Preciso aceitar as dificuldades que virem a transpor nosso caminho e manter seu pensamento focado nas escolhas certas. E eu estarei aqui, lutando por nós, mesmo quando tudo parecer estar perdido.