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terça-feira, 8 de março de 2011

Verdades, Veredas


Há muitas distâncias por percorrer. O bonito dos sonhos fica longe, apartado do vazio e do tédio cotidiano, exige coragem para buscar, pede que se trilhe caminhos sem chão, travessias. O estranho do desejo insiste em se afastar; a felicidade é arredia, teima em escapar. É preciso gostar das paisagens, preencher-se com a vista que passa pela janela, se contentar no simples aguardar. Não podemos nos render ao equívoco de que tudo irá sossegar no final, deparar com o completo dos sentimentos só na última rua sem saída: a vida não tem linha de chegada. Temos de reparar, acostumar com o fato de que há beleza nas beiradas da estrada.
Há lembranças demais que remoer, algumas com desgosto, doendo feito corte profundo de lâmina afiada; outras com aquele brilho dos dias sem defeitos, me privando do pior dos medos: o medo da ausência.
A saudade – essa falta nostálgica – é uma vereda sem fim. A gente implora o viver de novo, para voltar no tempo achando que estando mais pronta aproveitaria melhor, não cometeria os mesmos despeitos. A gente delira, revira e bagunça o mundo tentando entender, e depois se desculpa pela falta de sensatez; a gente reclama, se vinga do destino e depois se arrepende, implora outra chance, mas a gente só ganha duas direções: uma das mãos do diabo e outra que desce do céu.
Todo estreito de mundo tem suas armadilhas, vertentes do mal, assim como toda verdade tem as suas mentiras, duelos da alma.

Inspirado em Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa

Written by: Angélica Manenti

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Tudo o que vale


A mesma questão me atinge todos os dias, mas a luz não se adianta para me salvar. Falta tanto sentido nos caminhos que trilhamos, falta tanta chuva ainda por se precipitar. Gostaria de encontrar algumas respostas, sei que você deve ter deixado um rastro perto da saída. Queria ter uma chance de olhar o futuro, descobrir se vale mesmo à pena continuar lhe esperando, ou se já está tarde o suficiente para desistir. Às vezes eu a reencontro em outros rostos, faço conexões com cenas que me atraem, fico cercada por você de todos os lados, não posso escapar. Noutras vezes eu distraio meus reflexos para lhe deixar passar em branco, sentir você fugindo para não gastar mais horas em vão arranhando aquelas velhas feridas.
Tudo fica sustentado no meu delírio de reaver os amores que me foram arrancados. Ainda acredito que os grandes sofrimentos, por justiça, me dêem o direito de encontrar o final feliz do outro lado. Preciso apagar esse rosto que fica se repetindo dentro da minha cabeça, que se materializa para me torturar. Preciso parar de jogar a responsabilidade da sua ausência nos ombros de outras pessoas que se aproximam de mim. Estou delimitando minhas chances, estou fechando meu próprio cerco, estou derrubando minhas muralhas.
O mundo não dá recompensas e entender isso me custou toda a esperança que tive um dia. Infelizmente ter compreendido não significa que será menos doloroso aceitar; aliás, aceitar vai além de qualquer possibilidade que envolva aqueles seus olhos de serpente venenosa latejando em minha memória. Você é um mal físico que me arde na pele, me queima as pupilas e atrofia meus movimentos; você é um mal súbito que me cega e me impede de caminhar.

Written by: Angélica Manenti

sábado, 22 de janeiro de 2011

A Fronha Inóspita


Essa não é uma história, é apenas o registro de uma memória:
Tínhamos uma fórmula - os amigos misturados à música, às bebidas mais variadas e aos pijamas. Juntamos tudo em uma festa barulhenta, com todas as cores da nossa bandeira. Pudera: deixaram-nos sozinhos numa casa.
Umas coisas incríveis precisam ser expostas sobre esse grupo (e me desculpem aqui se eu esquecer-me de citar alguém, porque somos como uma família em movimento: sempre tem aquele parente que aparece para matar a saudade e logo vai embora). Não temos distinção de raça, credo, orientação sexual nem qualquer outro; tem gente séria - mas que só consegue se manter séria por breves momentos - tem gente que dorme cedo - e assim passa a ser o alvo das piadas -, tem pessoas apaixonadas por outras pessoas - ou apaixonadas pela bebida -, tem gente que vive com fome, tem gente de todas as cores.
Tem meninas que preferem meninas, tem gente que gosta de um pouco de tudo, tem gente que prefere não opinar. Tem até uns que dizem gostar de outra coisa, mas ninguém acredita. Tem gente que dança porque sabe, tem gente que só sabe dançar quando bebe e tem gente que se revela quando dança. Mas o mais importante é que existe a amizade e isso não tem diferença que estrague.

Written by: Angélica Manenti
Esse texto foi escrito por livre e espontânea pressão. Desde o dia da tão inusitada festa do pijama (que durou três dias), o Rodrigo começou seu trabalho de chantagem comigo pra que eu escrevesse algo sobre a festa. E enfim no dia do aniversário dele eu lhe entreguei essa obra prima da literatura.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Consciência


A minha vida está atrasada: fico adiando compromissos e obrigações, olhando o calendário na esperança de ver que alguns dias ainda não passaram, mas os números não perdoam, o tempo está correndo. A espera é pegajosa, inunda todos os aposentos, carregada de demora. O incerto – a esperança que não tem a mínima chance de se concretizar. Acreditar na volta é só uma ilusão insensata, não há lógica nessa angústia – e eu sei – mas não aguardo a presença, apenas torço pelo fim do desespero, e que a aflição deixe de ser um drama insolúvel e intrínseco à vida.
Não há mais paisagem que me agrade, não há mais lugar que me transmita sossego. A paz não irá se manifestar em meio ao desconforto de se sentir deslocada dentro da própria casa.
A vida não espera, e nada muda se eu não começar a me mover. Eu digo que não vou mais me importar, mas quando tudo silencia e os outros pensamentos se esvaziam é aquela velha memória que assume o controle e vem me atormentar.
E eu que já fui mais simples, mais comum de sentimentos, acredito que minha solução talvez fosse retornar – voltar o filme, pausar na parte em que nada disso fazia diferença, quando eu dizia o que me viesse à cabeça. Era o tempo de não sentir medo; eu era só coragem, enquanto hoje sou um risco: arrisco poucas coisas para não passar nem perto da derrota e acabar me tornando ainda menor.

Written by: Angélica Manenti

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Contrário


Gosto da simetria e das estradas sinuosas, da harmonia e do balanço descompassado do mar; do ritmo acelerado, indigno, os corpos suados nos dias sem sol. Gosto da vida lenta, preguiçosa, demorando a passar quando a pressa nos invade forçando as escolhas, obrigando a esperar. Gosto do inteiro quando encontro a metade.
Agora eu perdi o fio da meada, me confundi num emaranhado de contradições. O tempo sempre na contramão, beirando o fim para justificar o passado vazio. Tenho sempre mais de uma opinião, estou dos dois lados, gosto de me defender, mas também preciso atacar. Estou segurando as pontas, atando os nós, mas estou sempre planejando fugir. Gosto do caminho errado porque o considero mais certo, só para provar o contrário. Não me obrigo a nada, mas me presto a muitos sofrimentos em vão por conta de detalhes. Compro dores que não me pertencem e depois eu reclamo. Gosto de causar danos e depois ajudar na arrumação. Gosto de me lamentar, embora eu saiba que a melhor cura para os erros seja esquecer.
Descansar é um segredo que eu ainda não desvendei: sempre volto muito tarde e não gosto de passar muitas horas sozinha. Não. A solidão é uma armadilha para os desesperados, empurrando em direção ao abismo, o extremo das soluções. É a agonia sem saída.
Os dois lados da moeda, o outro lado da ponte, o lado mais fraco, o lado da sorte. Gosto de observar tudo de cima do muro: transfigurei-me em neutralidade, calei minha voz.

Written by: Angélica Manenti

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Sobre um Reencontro


Estive pensando que provavelmente você não sabe quem eu sou e eu não a conheci o suficiente. Quero dizer, tirando o básico dos primeiros dias quando a gente pergunta a idade, se já amou um dia e se pretende ter filhos, nunca nos esforçamos fazendo planos. É possível que nem tenhamos muitas coisas em comum; talvez nossos signos não sejam ideais, um para o outro, eu ainda nem sei.
Mas será que o seu desejo ainda é só o desapego? Será que se eu optar por você mais uma vez, vamos continuar naquele velho jogo de armadilhas e indiferença, ciúmes e desaforos?
Não consigo nem me enganar: você tem os defeitos que me inspiram, tem o cheiro e a cor dos bons sonhos, é um tormento reconfortante no meio do caminho errado. Já vivi todas essas cenas antes, conheço seus passos, e mesmo sabendo que não sou mais tão inocente e você parecendo mais sincera ainda fica difícil aceitar que eu estou me deixando levar outra vez.
Isto aqui já foi um diário de amores sofridos e saiba que você já ocupou algumas páginas dele há muito tempo; eu não esperava vê-la novamente, talvez por imaginar que eu fosse implorar mais uma chance no instante em que a olhasse, ou por ter consciência de que sendo eu tão vulnerável iria me impressionar rápido demais. Eu estava certa ao me proteger, porque no momento em que a percebi meu coração quis saltar tentando me alertar do perigo.
Agora é tarde para querer definir o ponto em que eu não podia ter me distraído: você já chegou tirando meu sossego e meu silêncio se fez grito de socorro. Então entre e tome de uma vez o seu lugar, mas venha para ficar e só não repare na bagunça que ninguém conseguiu arrumar ainda.

Written by: Angélica Manenti

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Passado Remoto


Não posso nem brindar minhas astúcias, pois compreendi umas verdades intragáveis sobre mim: só tenho a capacidade de me regenerar e me fazer melhor quando sou confrontada por alguém que me incomoda.
Não posso suspeitar dos meus instintos, pois só percebo que estavam certos quando já é tarde demais. Estou com o destino há muito decidido, nas mãos dela.
Se eu pudesse torná-la real, eu tinha alguns planos já traçados para nós. Às vezes, olhando as fotos que restaram, relembrando longas conversas eu fico procurando qualquer pista que faça o mínimo de sentido. Minha vida virou pelo avesso: sinto arrepios de medo só por imaginar que você pode nunca mais voltar. São tantos dias de espera, são tantas horas incertas sem desejar outra coisa que não seja vê-la surgindo de repente, dizendo que veio para ficar.
Você foi indiscutivelmente o meu veneno: lento, impiedoso, me corroendo aos poucos, mas eu só conseguia respirar enquanto corria em minhas veias. Eu nem posso reclamar sua ausência, em parte por minha culpa que num momento de desconfiança lhe pedi que saísse da minha vida; mas era só uma ameaça – eu nunca encarei bem a possibilidade de lhe perder – achei que eu precisava de uma prova maior quando a vi escapando entre meus dedos sem que eu pudesse evitar. Tentei lhe dar um susto fazendo a maior besteira de todos os tempos: os dias foram passando e derramando minha esperança de lhe ver de novo; os meses foram me esmagando e nada me conforta; já passaram alguns anos e eu continuo a esperar.
Fiquei aqui, com o coração a definhar, escrevendo esses apelos enquanto me agarro ao delírio de que estes lhe trarão de volta. Mas eu devo ter perdido a sanidade para sonhar com isso – algumas palavras bem escritas não têm o poder de concertar uma história que eu mesma destruí.

Written by: Angélica Manenti

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Agonias Entrelaçadas


O que vou fazer com essa solidão teimosa que tem ocupado todo o espaço dos outros sentimentos? Eu pedi que ela fosse embora porque não agüentava mais aquela expectativa – passar os dias aguardando pode corromper nossos sentidos e noção de tempo, transformando minutos em dias, ressaltando as horas vagas repletas de agonias.
As lembranças recentes vão se dissolvendo na mesma velocidade em que são criadas, enquanto que aquelas velhas memórias dos tempos de incerteza e coragem só fazem firmar ainda mais suas raízes.
Às vezes dá vontade de admitir que enlouqueci mesmo, que não consigo mais pensar direito e minha cabeça dói sob o peso do esforço que faço para esquecer o que já se calou e lembrar do que precisa permanecer. Dá vontade de gritar que chega, não quero mais ouvir nada disso. Mas a vida foi feita mesmo para ser suportada – na mentira e na desordem – como um grande teste de paciência. Apontar injustiças não obriga que elas sejam resolvidas assim como reclamar saudades não ressuscita os mortos.
As palavras precisam ser bem medidas nesse funeral de histórias mal acabadas: a intenção precisa ser comedida, a raiva tem de ser drenada. Escrever um desabafo pode reiniciar uma guerra adormecida, só depende do quanto disso aqui é verdade ou capaz de se encontrar com seus pesadelos mais íntimos. Deixem que a conheçam, revele seus defeitos, tire a máscara em público e veremos quem é capaz de lhe aceitar.
Não estou gostando dessas linhas e com certeza irei odiar as próximas, porque venho tentando descrever aqui imagens e sensações impossíveis de definir; talvez isso justifique minha dificuldade em me fazer objetiva. Havia tantos rostos se fundindo e confundindo meus desejos, de tantas mulheres que eu nunca mais consegui encarar de frente: algumas tão distantes, encantadoramente impossíveis; outras com ares de deusas da antigüidade, tão sagradas e intocáveis; algumas são a reencarnação de Lilith, demônio da promiscuidade, cheias de curvas e malícias; outras são víboras traiçoeiras, sedentas de sangue e se alimentando da culpa alheia; algumas tão doces e melancólicas; outras frágeis, desprotegidas, vingativas, arrogantes e desumanas.
Sinto falta de cada uma delas, assim como também sinto repulsa e temo que elas retornem. Não posso continuar sem elas, mas não posso mais revivê-las. Estou presa a uma contradição: não posso erguer as bases de algo novo sem que me livre do passado, mas continuo respirando o ar daqueles tempos.

Written by: Angélica Manenti

sábado, 13 de novembro de 2010

Epílogo: Nota de Correção


Tantas pessoas ainda por se encontrar, e a gente se perdendo por descuido do egoísmo. Eu queria lhe dizer umas verdades antes de ir embora, mas me senti culpada por conhecer sua história, achei que não tinha o direito de lhe ferir. Naturalmente eu estava enganada: em toda relação existe um lado injusto e você não se importou de machucar meu orgulho dizendo um monte de absurdos desnecessários.
Confesso que não sinto sua falta, e pela primeira vez não encaro isso como um grave pecado. Não é, nem de longe, minha intenção condenar suas escolhas, apesar de achar que os rumos que se sucederam não fazem sentido. Nada disso condiz com a paciência que lhe despendi.
Mas eu sempre estive afundando – isso já não importa – e as minhas dúvidas há muito acostumaram a não serem sanadas. Se eu lhe fiz perguntas foi por conhecer os meus direitos: independente da sua justificativa, eu era a única parte interessada em ouvi-la.
Mais uma vez fui recolhendo meus anseios, e na rotina de me privar do sentir eu fui criando barreiras intransponíveis em torno de um coração já indiferente a qualquer espécie de sentimento.
Confesso ainda que se chorei, foi por não admitir perder. Não se tratava de sofrimento, remorso ou medo de sentir sua falta – era apenas orgulho, ferido no mais íntimo de sua existência – sendo rebaixada por alguém a quem dei a liberdade de invadir a fortaleza da minha frieza por ter me feito acreditar que eu estava me entregando em boas mãos.
Infelizmente não há outro assunto do qual eu possa tratar no momento. Não estou me vingando ou tentando me apresentar como vítima. Sou pessoa de muitos equívocos e memória fraca, guardo muito bem minhas culpas para remoer nas horas vagas e esqueço facilmente as desavenças. Mas essa culpa não me pertence: não fui responsável por esse estrago todo, minha consciência descansa tranqüila e até um tanto mais leve sem a preocupação de ter de passar os dias tentando lhe entender.

Written by: Angélica Manenti

domingo, 10 de outubro de 2010

Meu Desperdício


Fui esquecendo-me de viver: sempre lutando contra o sono ou dormindo demais. Os dias foram se escondendo de mim, se condensando em chuvas torrenciais, se nublando de propósito; a noite foi se esquivando, escorrendo e tantos lados escuros foram me fazendo sentir fora do meu espaço e tempo.
Quando eu me perdi por vaidade – achando que a felicidade era para mais tarde, para quando houvesse tempo de sobra. Fui me tornando covarde e o medo maior sempre me aguardando no espelho. Ensaiei longos pretextos por não estar me sentindo confortável com essa situação e achei todos dramáticos demais e nem de longe verídicos; é só uma condição minha que eu, por desleixo me recuso a mudar. Era o mal, exagerado e ambicioso exigindo atenção. Minhas verdades: não sou boa em quase nada, mas digo que faço, refaço e desfaço. Qualquer hora eu me atrapalho com meu próprio atrevimento.
Foi quando a vida esvaziou-se, e eu, ingrata e sem escrúpulos fui buscando delírios e vícios mais reconfortantes; entreguei-me às minhas mazelas: recolhi-me ao meu submundo antecipadamente. Eu tinha planejado me entregar ao impulso mais tarde, pretendia me expor aos riscos quando sentisse que algo muito maior se perdeu. Achei que fosse o momento quando me vi desatando laços e escorregando nas falhas que pareciam ter sido consertadas.
O egoísmo me preenchendo e eu querendo que o mundo abrisse os olhos para me enxergar. Fui sentindo um apelo crescendo dentro de mim junto a uma vontade de ser maior. Mas era repentino e superficial, era medo de estar caindo no mesmo abismo de dias passados e eu acabei me acomodando – desisti de me recompor.

Written by: Angélica Manenti