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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Muito perto do céu

Inspirada na música Beatriz (Composição de Edu Lobo e Chico Buarque) - para ouvir a música interpretada por Ana Carolina, clique aqui.

Num bairro não muito distante do centro da cidade se ergue mais um edifício acinzentado, em meio à selva de concreto que se instalou em lugar do que um dia foi natureza. Em cada uma daquelas luzes quadriculadas tão minúsculas vistas de longe se desenrola a vida de tanta gente sem nome e sem um rosto definido para Leonardo, um morador pacato e silencioso que sobrevive de comida congelada. Todas as outras janelas têm horário definido para apagar as luzes e decretar o fim de mais um dia na vida medíocre da classe média. Leonardo não acompanha esse ritmo, é um forasteiro da própria vida, e é durante as horas frias da madrugada que o frustrado e solitário ex-professor universitário - impedido de trabalhar por um problema grave de dicção - senta-se junto à janela da sala, com uma caneca de café fumegante e observa sua musa misteriosa.
Ao lado do tímido edifício, um imponente arranha-céu termina de esconder todas as estrelas da noite e o que mais a vista pudesse oferecer a Leonardo. No último andar deste, Beatriz gasta as madrugadas ensaiando para sua estreia como bailarina no Teatro Municipal. Uma menina dedicada que ganhou as primeiras sapatilhas de balé da mãe, poucos meses antes desta última falecer e decidiu que se tornar uma bailarina famosa seria seu maior objetivo. Beatriz tinha apego pela perfeição, e a cada vez que repassava a coreografia, tentava imaginar como seria lidar com a pressão e o nervosismo da estreia em um palco tão almejado. Durante muitos anos, Beatriz dedicou-se exclusivamente ao balé, tinha a postura ideal e um rosto de traços muito singulares, os movimentos leves e a delicadeza de seu andar lhe imprimiam um ar de fragilidade, como se ela fosse se partir a qualquer momento.
Leonardo nunca ouviu a voz da moça, jamais sequer pôde sentir seu perfume ou verificar de perto se seus cabelos eram tão macios quanto aparentavam; ele apenas observava através da janela enquanto uma infinidade de questionamentos lhe vinha à mente. Algumas vezes chegou a pensar que a moça talvez não existisse, ou que fosse fruto de sua imaginação ou uma trapaça do próprio cérebro saturado de personagens fictícias dos livros que devorou ao longo da vida. Mas geralmente se convencia de que aquela criatura tão angelical estava mesmo ali, no prédio ao lado, flutuando insistentemente na mesma coreografia há semanas. Será que ela sabia que Leonardo a observava? Será que algum dia reparou também na luz acesa do outro lado da rua, quando todas as outras já se haviam apagado? Ele gostaria de ter a resposta para todas essas perguntas, mas a covardia o impedia de se aproximar da jovem bailarina. O que ele não podia imaginar era o tamanho da solidão que ela enfrentava, e as lágrimas que encharcavam seu travesseiro todas as noites, quando ela se lembrava de tudo que perdeu. Uma voz insistia em sussurrar para ela que nada mais valia à pena, e que todo seu esforço seria em vão.
Beatriz era um desejo silencioso, uma amostra de vida celestial enviada para brilhar diante dos olhos daquele poeta que deixou de viver a realidade e passou a imaginar como seriam os dias com ela, achando que a felicidade existia, mas estava presa no topo de um arranha-céu que ele não podia escalar. Numa dessas noites, quando Leonardo se preparava para repetir seu ritual de observação junto à janela, percebeu que as luzes do último andar não haviam se acendido, e por outras três noites seguidas não tornaram a se acender.
Inconformado com o repentino sumiço da bailarina, numa manhã de sexta-feira, Leonardo acordou cedo, como não fazia há algum tempo, desceu até a rua, andou até a portaria do prédio de Beatriz em busca de vestígios, os quais ele inconscientemente sabia que não encontraria, então decide caminhar um pouco para refrescar as ideias. Próximo a uma parada de ônibus, a algumas quadras de casa, Leonardo avista um cartaz com o rosto de sua musa estampado. Beatriz - estreia nesta sexta, no Teatro Municipal, às 21h. Então era esse o nome dela. O covarde apaixonado resolve ir assistir oficialmente a coreografia que teve o privilégio de acompanhar desde o primeiro ensaio, acreditando que estará seguro em meio à plateia, sendo apenas mais um espectador. Já desabituado a se vestir para sair, vasculha o armário à procura de seu melhor terno, chega cedo ao teatro e faz questão de comprar um assento nas cadeiras do meio, como se por ventura Beatriz fosse encontrar seu rosto em meio aos pagantes e pudesse reconhecê-lo.
Os minutos antes da hora marcada se arrastaram preguiçosamente. Leonardo se revirava na poltrona, buscando uma posição que acalmasse o coração entusiasmado por finalmente saber o nome dela e receoso por continuar tão distante. Passou mais de uma hora e a estrela da noite não havia aparecido. A produção do espetáculo se desculpa com a plateia e pede que mantenham seus ingressos para assistirem à peça em outro dia. Leonardo pega um táxi de volta para sua vida miserável, mas ao chegar a sua rua é surpreendido por uma multidão de curiosos que parecem observar um grande acontecimento. Ele acerta o preço da corrida, desce do táxi com uma sensação de que a confusão lhe dizia respeito de alguma forma, e penetra em meio à multidão até conseguir chegar ao motivo de tudo: na calçada, uma mancha de sangue escorria, pegajosa, do corpo da jovem bailarina que se atirou do último andar do arranha-céu.

Angélica Manenti

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Um achado antigo, mas nem por isso obsoleto

Fico confusa e atordoada, achando que me falta alguma coisa, e me dou conta de que há muito tempo não escrevo. Decido então que o que me aflige é a falta de expressar o que sinto, mas descubro que no instante agora já não sinto nada.
Olho para o céu e penso em divagar sobre as estrelas, como muitos poetas fazem. Primeiro que poeta não sou, e outra que não consigo compreender o que se vê de tão especial naqueles minúsculos pontinhos que brilham lá, tão longe. É certo que essas estrelas sejam mesmo enormes, mas não aqui; não para mim que as observo cá da Terra. Acho mesmo possível que me faltem mais pessoas a quem amar nessa vida, mas de que me valeria ter mais gente, se as que já tenho muito me decepcionam e causam dor?
Encontro por vezes alguma vaga presença que me completa num momento e em outro logo me foge. Corro atrás de figuras utópicas que representam ser perfeitas e me parecem bem promessas de felicidade, mas que sequer sou capaz de alcançar. Deve ser essa a impressão que causam as estrelas aos poetas; que o brilho tanto os atrai e fascina, mas que jamais poderiam pisar. Contradição - porque não se deve desejar pisar aquilo que se admira.
Adorar é aprender que o objeto estimado é intocável. O próprio amor é uma ideia irrefutável. Creio que só a distância permite que se mantenha vivo o amor por qualquer criatura; que estando longe consegue-se ocultar seus piores defeitos, ou ao menos fechar os olhos aquilo que não se convive.

Angélica Manenti

domingo, 3 de junho de 2012

O amor mudou de cor


Às vezes os sonhos desgastam, a falta de respostas desespera, a indiferença arrebenta com as fibras do coração. Eu tenho tomado minhas providências, tenho me refeito dia após dia e encarado meus medos, defeitos e desesperos bem de perto, provando a mim mesma que sou maior do que a minha condição de romântica incurável. O meu amor cresceu, e por isso mesmo eu preciso que esse assunto seja tratado com seriedade; não posso mais permitir que alguém venha remexer meus destroços, sem nem pensar nas consequências de recolher estes cacos, antes que eu termine de me recompor.
Já ganhei feridas amargas na alma, não aturo mais desaforos, não me conformo com atitudes mesquinhas ou infantis demais. Estou madura e quero viver essa minha evolução de fato, antes que se acabem de uma vez por todas esses sentimentos que eu cuidei de cultivar com delicadeza para que não se estragassem.
Lamento a saudade que nunca deixei de sentir, mas aprendi a responder a ela com superioridade, descobri que podemos conviver sem causarmos injúrias uma à outra; lembrei que às vezes é preciso ficar sozinha, começar a acordar de bom humor só porque aí está o mundo todo se dando ao trabalho de se manter em movimento, mesmo que eu ainda não tenha me resolvido.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Inverno


Devolva o nosso inverno. Deixe a estação se encaminhar.

Você nunca deixou de me amar, apenas esqueceu como reconhecer o que sente; mas o frio está impregnado de lembranças nossas, e os ventos gelados do sul logo estarão de volta, vamos precisar do nosso abraço outra vez.
Eu nunca deixei de ver o amor nos seus olhos, e agora posso ouvir a saudade trêmula em sua voz. Você nunca perdeu a esperança como costuma afirmar, apenas deixou que esfriasse demais.

Angélica Manenti

"I see the seasons changing
And in the heart of this autumn I fall
With the leaves from the trees"

H.I.M - Play Dead

quinta-feira, 29 de março de 2012

Conclusões Ineficazes


É tudo tão breve. Ontem mesmo eu resolvi que não iria mais lamentar minhas perdas, e hoje elas estão aqui me sufocando como velhos fantasmas que não deixam minha casa só por orgulho mesmo. Ainda ontem me convenci de que o telefone não vai mais tocar, de que é inútil ficar olhando fotos de momentos que não podem voltar, de que algumas coisas simplesmente se vão, e não existe uma razão incondicional que as fará vir até mim outra vez por força do destino.
Eu queria que você desse um novo sinal, que me procurasse, mas o seu silêncio só prova sua falta de interesse. Eu queria poder lhe procurar, nem que fosse com um pretexto qualquer de pedir para você devolver minhas coisas, mas iria contradizer meu decreto, quando eu bati a porta coberta de raiva e exigi que não ousasse me dirigir a palavra, nunca mais. Você guardou aquela minha última frase como um tesouro de despedida, eu sei, e agora tem exatamente o que precisava para me cobrar essa distância. Não posso deixar de dizer que você é orgulhosa, mesmo que isso a ofenda, porque ainda acho que muitos dos nossos desencontros se devem ao seu temperamento arredio, sempre protegendo o próprio ego antes de se entregar a qualquer sentimento. Talvez você estivesse certa, afinal, essas pessoas cheias de coração parecem mesmo uma ameaça.
Você me arruinou de muitas formas, principalmente quando fez o amor tão verdadeiro; eu conhecia seus impedimentos, sua dureza de caráter, e sabia que ouvir palavras tão carinhosas e sinceras saindo da sua boca era como presenciar um fenômeno único. Eu, que tinha dúvidas sobre a existência do amor, me senti tão cheia de sorte – deve ser sorte o nome disso, porque eu não esperava recompensas da vida – e entendi que se a felicidade podia mesmo ser alcançada, era o que eu estava fazendo com você.
Mas você estava era exausta de ouvir falsas promessas, conselhos tortos e declarações controversas. Quando eu cheguei oferecendo minhas verdades e nenhuma outra vantagem, ficou difícil acreditar em mim. Eu tinha aquele monte de outros defeitos – não nego –, mas minhas declarações e promessas nunca foram vazias. E se às vezes eu gritava, era por medo de você não querer me ouvir; se eu perdia a cabeça e acabava bebendo demais, era pra chamar sua atenção; se eu tentava desaparecer, era só pra ver se você tentaria me procurar. Eu ficava sabendo no instante seguinte que você repudiava aqueles comportamentos, mas achava que o amor devia justificar, já que não era maldade minha e sim inocência. Então eu me arrependia e chorava, mesmo depois de me avisarem que você não me aceitaria chorando em sua frente. Eu tropeçava sempre nas mesmas besteiras, e ainda assim você me permitia ficar por perto.
Mesmo com tantas dúvidas eu venho lutando bravamente para lhe esquecer, retomar meus caminhos e distrair meus sentimentos, mas em algumas madrugadas você vem me doer de um jeito que, ou eu começo a despi-la no papel, ou a derramo em lágrimas que sempre acabam encharcando o rosto que antes eu demorei tanto a enxugar. Eu não sei se essa agonia que a sua ausência me causa é do tipo que se cura um dia, com o simples toque do tempo, ou se vou ter de carregá-la sem direção até descobrir onde posso depositá-la. Não sei se o único antídoto que existe está com você, ou se eu preciso descobrir a fórmula sozinha. Por isso venho encarando tudo isso como um tratamento de dependência, no qual cada dia que eu consigo me conter sem me jogar aos seus pés novamente é uma vitória incontável.

Angélica Manenti

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Mais uma carta

Hoje acordei decidida a colocar no papel tudo aquilo que tenho vontade de lhe dizer, como se isso fosse descarregar um peso que venho trazendo em meus ombros. Tenho milhares de coisas para fazer, mas você ocupa meu pensamento e eu não consigo começar nada enquanto não alivio a angústia que me consome.
Eu já procurei uma centena de respostas e explicações para o que aconteceu, mas tudo continua às escuras – talvez porque eu não queira aceitar o pior. O fato é que vivemos os dias mais incríveis, e eu estava segura de que eram os mais especiais para você também. Não sei explicar, mas era um amor tão intenso que as pessoas diziam que podiam até sentir quando estavam perto de nós; eu via em seus olhos uma satisfação de quem estava finalmente conhecendo o amor puro e verdadeiro. Eu sabia que tinha em minhas mãos o poder de mudá-la, mas queria você exatamente do seu jeito. Eu me sentia como um domador de feras selvagens quando conseguia manter você quieta dentro do meu abraço, e sabia que nunca alguém tinha alcançado tal feito com você além de mim, e ninguém conseguiria repeti-lo. Eu ficava observando você com toda aquela energia, de queixo caído mesmo, e eu realmente tenho saudade de respirar aquele ar de vida. É engraçado como aprendi a gostar até da sua cidade, e sinto tanta falta dos bons momentos que vivemos lá.
O problema é que acabou, e eu continuo me perguntando por quê. Você veio com uma justificativa absurda, e eu achei que quando você percebesse o engano iria voltar para mim. Mas não, quem errou fui eu. Reafirmo que não lhe traí, como você chegou a acreditar, até porque eu sequer conseguia desviar meus olhos e meu pensamento de você. Eu estava tão imersa no sonho que idealizei com você que chegava a ser absurdo pensar haverem outras pessoas no mundo. Aí eu penso que devo ter errado muito mesmo foi por lhe amar demais – tudo o que é demais se torna prejudicial. Sei lá, eu acho que estraguei você. Eu lhe enchia de presentes, de carinhos, e fazia todas as suas vontades, mas não era por querer comprar o seu amor; era o meu desejo e necessidade de fazer tudo por você, e de tornar seu mundo perfeito, como se lá fora pudesse deixar de existir. Com você eu até era capaz de gostar de mim, porque eu podia fazer qualquer coisa, até mesmo voltar no tempo e reviver o melhor dos dias. Então eu penso se essa minha fantasia de romance de conto de fadas foi o que lhe enjoou, ou se eu fiz pouco e me perdi tentando acertar demais. Às vezes eu lembro de algumas brigas que tivemos, dos momentos em que me chateei por motivos tão pequenos ou cobrei algo que não era sua obrigação, e penso que isso pode ter me arruinado; mas também lembro de você me confortando ao dizer que namoros são assim mesmo, e que as brigas eram parte essencial para nos sentirmos vivas. Realmente, depois das brigas era muito bom tê-la de volta e ouvir aquelas palavras que, se eu contar, ninguém acredita que foram ditas por você.
Eu queria que você me explicasse algumas coisas, mas tenho medo de acabar ouvindo justamente o que tanto me assusta: que o amor simplesmente acabou, assim, sem um motivo ao certo – porque eu me esforcei tanto para fazer acontecer que não consigo enxergar o final. Então eu fico procurando pretextos, pondo a culpa na sua imaturidade, na sua família, na sua falta de liberdade, nos céus, na inveja alheia, até invento medos que eu nem sei se você realmente tem só para dizer que lhe faltou coragem de lutar por nós.
Suas últimas palavras e seu olhar raivoso na despedida contradizem todas as lembranças que eu tinha de nós. Sei que a vida foi dura com você e lhe fez acreditar que as pessoas não valem o esforço que custam, sem exceções, mas eu quis ser a diferença para lhe oferecer um pouco de esperança e alegria em meio ao caos do seu dia a dia. A sua resposta não foi recíproca. Foi tão cruel e hipócrita da sua parte não dar a mínima importância ao meu pedido de desculpas – por algo que eu não fiz – que eu senti vontade de gritar com você, usar de violência para ver se à força eu lhe fazia entender. Às vezes me arrependo de não ter tentado, por pensar que podia ter dado certo; talvez você estivesse impaciente com a minha ausência de reação. Cheguei a pensar que você me maltratava só para ver se eu tomaria uma atitude; mas eu, no auge do meu amor incondicional a perdoava e continuava empurrando sua indiferença para debaixo do tapete.
Depois, quando eu descobri que você tinha outra pessoa e fiquei ainda mais dilacerada por dentro, as minhas possibilidades de entender eram mais escassas: ou você me trocou – por não amar mais -, ou me substituiu – por amar demais e precisar esquecer. Só de pensar, ambas as idéias me consumiam em dor.
Eu queria ter registrado muitas coisas que você me disse para um dia eu me revoltar, pegar todas as suas frases em minha defesa e exigir por bem ou mal que você cumpra com o que falou.
Lembra quando eu fui tentar impedir que você viajasse? Eu estava sentindo algo tão ruim dentro de mim que sequer conseguia falar em meio às lágrimas e soluços; você me confortou dizendo que eu era o amor da sua vida e que não iria deixar de me amar quando voltasse. Pois é, mas você voltou diferente e meus medos se concretizaram. Você estava distante, e hoje eu me pergunto se foi nesse ponto em que nos perdemos. Também guardei sua voz me dizendo, dias depois, que independente de estar comigo ou não, eu sempre fui, era e sempre seria o amor da sua vida. Essas palavras alimentam em mim uma esperança de que talvez deixando o tempo passar você obrigatoriamente voltará para mim, por determinação do destino que nos fez assim, perfeitas uma para a outra. E eu quero com todas as minhas forças conservar esse amor intacto, para estar aqui esperando, como prometi, quando você se der conta de que o amor tem sim uma razão de ser e que é essencial para a vida. Você pode estar machucada e desenganada agora, porque os acontecimentos e a pressão da vida foram muito mais pesados nos últimos tempos, mas a sua visão sobre isso ainda vai amadurecer, assim como muitas outras tempestades dentro da sua cabecinha inocente. É claro que eu tenho medo de estar me iludindo, até já me desesperei ao ser alertada sobre o risco que estou me propondo a correr; já fui aconselhada a desistir e já ouvi de você mesma que definitivamente acabou, mas não consegui acreditar nesse radicalismo todo acompanhado de um olhar tão pesaroso e de uma voz tão embargada. Eu sei que é mais saudável seguir minha vida e lhe esquecer, desistir de uma vez por todas e não ficar aqui inerte, esperando que um súbito choque de realidade a faça admitir que ainda me ame.
Também sei que não devo depositar minhas chances de ser feliz todas sobre você, mas eu ando mesmo sem razão para me animar com a vida, querendo desistir de carregar tanta responsabilidade sem entender muito bem para onde estou indo. Essa sensação de culpa misturada à certeza de ter sido única para você é que me tortura.
Talvez um dia eu reúna coragem suficiente para lhe entregar esse desabafo – que pode parecer ridículo, mas é cheio de verdade – mesmo ainda incerta sobre o poder das palavras. Pode ser que elas despertem algum sentimento em você, que seja o tédio ou a compaixão, mas por favor, não fique assim tão indiferente.

Angélica Manenti



“Palavras são, na minha nada humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia. Capazes de formar grandes sofrimentos e também de remediá-los.”

Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Afaste-se de mim


Já escrevi tantas bobagens para tentar me confortar, mas sempre fico medindo as palavras, assim como passei tanto tempo ponderando minhas atitudes, tomando cuidado com o próximo passo para não magoar alguém ou no mínimo não incomodar com a minha presença. Depois eu tento encontrar o ponto em que errei, fico egoísta com a minha culpa e descubro que sou mesmo uma covarde sem escrúpulos, que fico remoendo mentiras dentro de mim para não deixar extravasar minha fúria.
Fui discreta quando você me pediu, fiz alarme do nosso amor quando você queria que o mundo soubesse de tudo; ignorei as desavenças do passado e continuei engolindo os tropeços da sua imaturidade tardia; gostava de lhe ver como um mistério e achava graça do seu jeito rebelde. Eu mal cabia em mim quando você abria um sorriso; e você tramando meu desespero, querendo se esquivar e me deixando à deriva. Você que era tão esperta e sempre esteve fadada a fugir de mim, desatar nossa história, quis esmagar melhor meus destroços antes de partir; quis deixar cicatrizes, me desequilibrar.
Eu baixo minhas armas, você venceu. Estou desistindo, admitindo minha fraqueza. Eu realmente criei preguiça do nosso amor. Viver aos tropeços com você me cansou, eu não tenho mais fôlego para isso. Não espero que você volte, porque isso me custaria muita vaidade. Não quero mais lembrar nossos bons momentos, porque isso sempre me estraga o sono. Não quero discutir nossa relação irreal, porque você foi tão fraca e doentia ao me deixar sem uma explicação e ainda ter saído cheia de razão. Eu era muito pequena perto de toda a sua beleza e ousadia, eu não tinha chance perto de você. Fui me encolhendo em minha insignificância e me curvando às suas ordens. Eu me humilhei sabendo que iria terminar no mais fundo dos poços. Eu merecia cada instante dessa dor, mas por favor, fique longe, eu quero minha solidão por inteira.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Lágrimas Vermelhas


Admito que esteja acostumada a viver de ausências, mais do que com explicações sensatas e desculpas esfarrapadas. Não nego que já tenha sentido amor antes, e perdi mesmo. Também sobrevivi a isso, eu sei, com as minhas cicatrizes, minhas dúvidas e uma longa angústia. Deixei que escapasse, sem motivos desisti, permiti que desaparecesse. Fiquei aqui sem respostas para as minhas questões mais pertinentes, reclamei direitos e desesperos, roguei pragas contra esse destino trapaceiro que só faz me colocar em maus lençóis. Mas você, tão fraca e ao mesmo tempo tão cheia de mistérios, você que se esconde das próprias verdades achando que pode evitar se ferir, eu a desvendei. Eu descobri seu ponto fraco e compreendi suas dores; apoiei suas loucuras e lhe ofereci as ferramentas para tomar o caminho certo. Você está perto o suficiente para me machucar, e continua vívida nos meus pesadelos. Você não tomou o rumo oposto para se desfazer de mim rapidamente, foi me deixando ficar ao seu lado enquanto a espero mudar de ideia, mesmo sabendo que isso talvez nunca aconteça.
Há muito não me sinto bem, e sei que essa doença é consequência de alguma parte minha que não está mais aguentando viver sem você. Está difícil respirar, tornou-se terrível encarar o espelho, como se cada pequena marca em minha pele tivesse sido provocada por você.
É meu corpo que não suporta mais, são minhas pernas que se negam a me sustentar, só porque eu nunca mais amanheci com você.

Angélica Manenti

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Soltar-se


Quero desistir de você, esquecer essa maldita esperança que arrasta meus dias ao longo de uma agonia intolerante, que não escolhe hora nem lugar para se manifestar, que suga minha energia e me faz parar por completo. Queria interromper a vida ao meu redor, estragar meu destino, mas cada vez mais mergulho de cabeça na rotina sufocante de pensar em você e tentar entender o que nos trouxe ao final.
Pouco a pouco vou sendo tomada por lembranças que ardem na minha memória e me provam que é impossível continuar a escrever minha história sem você. Não funciona mais desabafar; tentar lhe convencer de que o amor vale a pena já se mostrou inútil, porque o mundo lhe maltratou e eu acabei levando a culpa pelos sentimentos mesquinhos dos outros. Eu que sequer consigo expressar em palavras o amor e a dedicação que guardei para você e eu que sempre batalhei para manter meu caráter, estou pagando pela injustiça do mundo que a fez tão desacreditada.
Meu respeito por você é a única coisa que me impede de atear fogo em sua cidade, de lhe fazer entender à força que não pode haver outro caminho para nós a não ser aquele que começamos a trilhar juntas, e que só foi interrompido por um desatino do acaso. Sei que errei ao tentar acertar demais, mas não posso ser condenada por querer fazer do nosso romance o mais perfeito e impressionante já visto.
Queria fugir, me manter a quilômetros de distância de você, mas quando lembro o seu sorriso e aquele olhar encharcado de dor, que arde em lembranças ao encontrar os meus olhos, eu perco a razão, atravesso as palavras e acabo repetindo tudo aquilo que jurei guardar só para mim. Queria ficar o tempo todo perto de você, mas estou aprendendo a gostar das despedidas, porque elas são meu pretexto para ganhar um abraço e poder senti-la de novo, mesmo que por breves instantes, e sentir sua saudade sufocada transparecendo por descuido.

Angélica Manenti

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Vestígios


Eu sei que já deveria ter me acostumado com a rotina de sentir sua ausência, mas você ainda me dói como uma ferida recente; eu ainda me deparo com vestígios seus por onde menos espero, - acho que percorremos ruas demais juntas nesta cidade – sua memória acabou gravada pelo acaso ou por engano em todos os meus caminhos cotidianos, e eu me sinto sufocada, onde quer que eu vá.
Eu penso o tempo todo em ir lhe procurar, bater à porta da sua casa, telefonar, esbarrar em você por alguma rua que escolhi de propósito onde você costuma caminhar. Falta muita coragem, ou talvez eu tenha inventado pretextos suficientes para me acomodar com essa situação e me convenci de que nada disso poderia funcionar mesmo. Afinal, você já escolheu me colocar para fora da sua vida, e eu, no extremo do meu amor e respeito achei por certo me sacrificar e preferi me retirar pacificamente.
Mas às vezes me pergunto se não teria sido mais confortável se tivéssemos terminado com violência e algumas ofensas imperdoáveis. Ambas merecíamos uma lição e alguns hematomas para nos fazerem lembrar as conseqüências do egoísmo. Eu precisava ser confrontada para aprender a não ser tão fraca e você precisava de um tapa na cara para abrir os olhos e enxergar o absurdo que estava prestes a cometer. Deveríamos ter despertado o ódio uma na outra, porque essa esperança ridícula que tem me mantido pode acabar agravando a minha dor.
Também passo os dias imaginando no que você está pensando; com que tipo de sentimentos você lembra de mim – depois de tantos momentos intensos, estou certa de que você deve se atrapalhar com as nossas memórias de vez em quando – penso se você guardou algum amor ou se já tinha deixado de sentir e se cansado de mim muito antes de tudo acabar.
O problema é que você esteve no meu quarto, na minha casa, nos meus delírios antes de dormir. Você deixou seu cheiro gravado naquela minha camisa que adorava vestir ao acordar; sobraram as nossas fotos nos meus arquivos, seus números de telefone na minha agenda, as cartas que eu escrevi pra você e nunca entreguei; seu nome se repete por coincidência na novela, nas rodas de conversa, dentro da minha cabeça. Você se tornou um fantasma, gélida e impaciente, invadindo meu espaço, e eu a conservei de modo involuntário só para me confortar nos momentos mais graves do vazio.

Angélica Manenti